quarta-feira, 22 de abril de 2015

JANTAR COM A MORTE

A Morte bateu-me à porta e convidou-me para jantar. Não foi a primeira vez que solicitou a minha pessoa, para se fazer acompanhar. Hesitei, por alguns momentos. Mas lembrei-me que a Vida se esqueceu de mim e já nem o meu nome deve saber. Deixou de me ligar, visitas nem falar e convites nem pensar. Não sendo eu de me entregar sem lutar, decidi insistir e fazer-me notar. Nunca consegui contacto para poder dialogar, estava sempre ausente. Recados fui deixando, à espera fui ficando, mas o resultado foi o mesmo…total indiferença. Como me sinto sem argumentos para nova investida, decidi silenciar a minha revolta e simplesmente ver o tempo passar. Agora que a Morte se fez anunciar e da minha companhia faz questão de desfrutar, vou aceitar o convite. Se ela, a Morte, há tanto tempo por mim anda a penar, ou é por eu ser muito boa, ou por ser muito má. Mas muito, sou em alguma coisa, com certeza. E entre morrer lentamente à espera que a Vida se lembre de mim, olhe para mim e a entregar-me logo nos braços da Morte, prefiro a última opção. Quem muito espera, ou alcança ou desespera. Como a única diferença que encontro entre a Vida e a Morte, é o factor tempo…uma tem, a outra não…. acho que tomei a decisão certa e sinto-me leve como o vento.
Vou jantar com a Morte e sinto que para ambos, será uma noite de sorte.


Helena Santos

2 comentários:

  1. Quanto o seu poema revela o desânimo, a desmotivação e a desesperança de uma alma ardendo nas chamas da solidão e do abandono de si mesmo...
    Pressente-se no final uma esperança na Morte, um desejo de mudança, como uma lufada de ar fresco.
    Impressionou-me tanto a densidade quase palpável da tristeza que dele imana, como o simbolismo nele utilizado. Mais uma vez, gostei muito. Parabens.

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  2. Obrigada por ter gostado, doce amiga Fátima. Mas trata-se simplesmente de um texto, que surgiu num momento de inspiração e nada tem a ver com o meu estado de alma.
    Beijinhos

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