sábado, 30 de julho de 2016

AINDA A ESPERANÇA

Via-te em cada esquina
Como se quisesses que te alcançasse
Aproximava-me e via-te na esquina seguinte
Como se quisesses que te seguisse
De esquina em esquina
Apercebi-me que apenas pretendias
Arrastar-me para o Passado
Àquele em que a dor quase me trucidou
Com a maldade com que me brindou
Mas não foi capaz, fracassou
Porque uma força maior
Em mim encontrou
Desejei ter-te num Presente de amor
Mas apenas mostraste querer que regressasse
A momentos de sofrimento, mágoa, terror
Há lugares para aonde não devemos regressar
E nesse inferno não voltarei a morar
Tudo o que de lá trouxe
Na esperança de algo mudar
Acabei por enterrar
Limpei a memória e tudo voltou ao normal
Se nada há para recordar
Que poderá haver para contar?
Do que é que estive a falar?
Esqueci-me e não consigo lembrar
A minha memória a falhar?
Não, é o meu amor próprio
Que decidiu se emancipar!


Helena Santos

segunda-feira, 25 de julho de 2016

QUE IMPORTA

Se é Primavera ou Verão
Pouco importa a Estação
Sei que há muita emoção
Já tardava a boa disposição


As flores desabrocham sem pejo
Os caracóis por elas se arrastam, bem vejo
Mas alegria é tudo o que desejo
E nos meus canteiros dá de tudo, até beijos

Da fonte jorra a água puras bailarinas
As tartarugas estendem-se ao sol, lindas
Bafejados por dias coloridos e quentes
Esquecem-se do frio e chuvas irreverentes

Os passarinhos não se calam
Ralho com eles, mas nem se ralam
Já tive um ninho com piu pius bebés
Rápido cresceram, bateram asas, eram três

Mas ainda há muito no meu quintal
Que merece a minha atenção
Há pêssegos lindos a engordar
E physalis deliciosas a amadurar

Não posso falar de tudo e gostaria
Mas a macieira deu lindas flores
A pitangueira cresce cheia de vigor
Usufruo de tudo, com os Patudos e alegria

Viver na aldeia é um encanto
E quando quero ouvir outro canto
Visito o amigo mar, ali em frente
Falamos, rimos e regresso mais contente!!

Helena Santos

terça-feira, 12 de julho de 2016

PROCUREI RETRATOS

Mais um amanhecer
Mas em nada igual aos que costumo ter
Hoje acordei contigo no meu pensamento
Foi estranho o sentimento
Faz tanto tempo que de ti nem o vento fala
E eu nem em ti penso
E de repente
Foi como se estivesses à minha frente
Mas sem rosto
Já passaram tantos anos…
Certamente que estarás muito diferente
Olheiras grosseiras, rugas teimosas
Cabelos grisalhos e outras marcas do tempo
Por curiosidade, entrei nos teus pertences
E procurei um retrato teu, recente
Não encontrei
Só vi registos do passado
Será que só lá foste feliz
E que o presente nada te diz?
Já que invadiste a minha mente
Gostava de ver como estás realmente
Mas escondes-te por detrás da insegurança
Como se as marcas do tempo te envergonhassem
E preferisses que o relógio tivesse parado
Mas há um tempo para tudo
Até para deixarmos de ser jovens fisicamente
E devemos aceitar isso com orgulho
Procurei sinais de ti
E apesar de pouco ter encontrado
Fiquei feliz, evidentemente
Recordei como eras, vendo retratos de antigamente
E assim passei um dia, com momentos diferentes
Agora, o que és e como estás
Já deixou de ser importante, novamente
O dia terminou.
Amanhã será outro tão ou mais emocionante
Estou confiante
Há sempre tantos motivos diferentes
Que me levam a saborear cada novo amanhecer
E são todos para agradecer e enfrentar
Não para me esconder!


Helena Santos
CHEGOU!

De repente do céu cai um raio de luz
Cheio de cor…diferente
Daqueles que sorriem, falam e sentem
Não é melhor nem pior
Dos que já existem
Pois cada um tem intensidade própria
E isso cativa, tal como a delicadeza
Cativou-me, encantou-me e rendi-me
E para além de tanta luz
Ainda considera a amizade
Mais importante que o amor
Claro que isso me seduz
Amor sem amizade é leviandade
Amizades criadas com intenções adulteradas
Com finalidades não claras
Dificilmente resistirão
Às verdades que o tempo
Põe à nossa disposição
Tanta gentileza emana o seu coração
Que o raio de luz da amizade
Brilhe com lealdade e honestidade
A quem acaba de chegar
Com capacidade e vontade
De conquistar e espalhar sorrisos
E eu tenho tantos para ofertar
Que quanto mais dou
Mais tenho para dar!


Helena Santos

sexta-feira, 8 de julho de 2016

NÃO SINTO A VIDA

Não sinto a vida com tanta empolgação como devia. Talvez por ela já nada me dizer, ou simplesmente por eu já não a achar interessante. Aliás, acho-a cada dia mais entediante, sem graça, apagada, sem nada que faça com que tenha vontade de acordar no dia seguinte e olhá-la. Nunca fui de perder batalhas, nem temer guerras, mas estou a perder a emoção pelas guerras impostas pela vida. Será por eu estar a perder vida, ou por estar a perder-me da vida? O céu tem cada vez mais nuvens escuras, as noites têm menos estrelas a brilhar, a lua já nem no mar se quer deitar. E eu, só sei que aqui não quero continuar. O sol incomoda-me, encadeia-me a alma e a sua intensidade fere-me e pele. Já não o suporto, já não o tolero e nem com seus malefícios me importo. Simplesmente o ignoro. Até o mar que sempre viveu em mim, ou eu vivi dele, de repente deixou de ser importante. Mas dele ainda não desisti…. Bebo da sua doçura, saboreia a sua calmaria, absorvo a sua sabedoria e até me congratulo com a sua revolta. Gosto dele, que importa! Sei que é uma fonte inesgotável e por mais que o sugue, não o seco. Visito-o quase diariamente. Nem sei bem o que lá vou buscar ou deixar, mas sei que com ele sinto-me protegida, confiante. Já são tão poucas as coisas que me fazem sentir bem, que dificilmente continuarei refém da vida por mais tempo. São dias e mais dias. Uns correm, outros andam, mas nenhum se preocupa em saber se alguém, por alguma razão, não os consegue acompanhar. Eles apenas querem o céu alcançar, custe o que custar. E se ao passarem, alguém pisarem, não param para olhar para trás, para ajudar. Assim são os dias que todos nós engordamos, com as nossas fantasias, egoísmos, maldades e vazios. Mas que raio de vida esta, que engole dias e não se preocupa como nós estamos? As minhas forças já quase que não as vejo, mas ainda moramos no mesmo corpo. A minha vontade era perder a vontade de fazer fosse o que fosse, sem vontade. Há quem durma apavorado com a hipótese de não acordar para o novo dia brindar; eu adormeço a rezar para que Deus não permita que dos meus sonhos venha a despertar. Como a vida rapidamente perde o sentido, quando perdemos algo que para nós fazia todo o sentido e logo deixa de fazer sentido, o sentido que a vida tinha. Olho ao meu redor e só vejo sombras de mim, sem terem qualquer fim, e pergunto-me: o que faço eu aqui parada, se por mais que me esforce, não consigo antever uma estrada que me leve a um destino que me faça chegar à conclusão que afinal a vida até tem graça? Mas o engraçado é que eu acho graça à vida, mas não no sentido de a querer bem e viver eternamente, como qualquer mortal pretende. Acho-lhe graça, porque ela sabe que nunca lhe implorarei que me deixe viver anos sem fim. Ela também sabe que eu decidirei quando, onde e de que forma terminarei a minha viagem. A ela nunca pedirei opinião, nunca precisarei de um sim ou de um não, bastará a minha decisão. Esta vida está um caos, eu cansei-me de confusão e de mendigar por migalhas de atenção, consideração e humanização!

Helena Santos

segunda-feira, 4 de julho de 2016

EU E O CAMPO

Vivo no campo
E oiço as ondas
Do mar onde me encanto
Que mais posso desejar
Se até lhe sinto o pranto
E quase lhe posso tocar?
Entre mim e ele
Tenho muito para desfrutar
Há campos lavrados
Eucaliptos perfumados
Animais a pastar, relaxados
Moinhos recuperados
Chaminés com vestidos rendilhados
Que dão beleza à paisagem
Há cabos de alta tensão
Que de feios chamam a atenção
Mas ficam diferentes, atraentes
Quando pássaros os transformam
Em belas pautas musicais
As perdizes acenam-nos
Da beira da estrada
E os coelhos correm e saltam
Brincando como crianças
O galo cantarola na alvorada
A galinha com o seu cacarejar de alegria
A chegada de mais um ovo, anuncia
Até os bâmbis lá estão ao entardecer
Para quem os queira conhecer
Há os costumes da aldeia
A simplicidade das suas gentes
Suas festas e tradições
Tanta cultura em ebulição
E claro, também tenho um por do sol
Sim, da minha humilde casinha
Vislumbro um mágico meio por do sol
Que umas vezes é laranja
Outras, amarelo
Muitas vezes anil
E de vermelho também se veste
Ali, a dois passos daqui
Para onde foge o meu olhar
E encontro o serenar
O sol beija o mar
Numa beleza sem igual
E eu posso imaginar
Como será o seu tocar
Sem precisar de me deslocar
A vida no campo é tranquila
Há sempre algo para aprender
Porque de campónia nada tenho
Mas a curiosidade é minha guia
E ouvindo as vozes da sabedoria
Enriqueço dia após dia
E há muito para aproveitar
De quem tem tanto para contar
Para ensinar…


Helena Santos