NAS PÁGINAS DA IMAGINAÇÃO
O teu olhar rebelde, traquina, infiltrou-se no meu e por mais anos que passem, não consigo amansá-lo. Nem quero.
As tuas mãos de tanto se passearem em mim, num momento de exaustão
adormeceram no melhor e mais confortável recanto e decidi não
acordá-las. Já fazem parte do meu ser.
Os nossos corpos tantas vezes
guerrearam, mas nunca houve vencedor ou vencido. Trocávamos de armas
com amor e o resultado era sempre um batalhão de prazer, com uma pitada
saborosa de dor.
Mas o futuro, assim se chama por ser desconhecido,
quando passou a presente, as gotas vulcânicas cuspidas pelos poros do
meu corpo, em contacto com o teu, transformaram-se em pedras granizadas
pela tua ausência, ou melhor, pela tua “morte súbita”.
Mas nem tudo
se perdeu, para ti. Nessa tua transição, já uma alma caridosa estaria à
tua disposição e tu não disseste que não. Foi um anjo que me deu essa
informação. Nem depois de “morto”, assumiste essa traição e decidiste
culpar-me desse momento de indecisão, mas que te serviu na perfeição.
Que páginas de vida ficarão por resolver na cabeça ou no coração de
pessoas racionais, para haver tanta separação, quando deveria dominar a
harmonia, a união? Ou serão irracionais?
É bom continuarmos a vestir
a pele de inocente/vitima para sairmos bem na fotografia. Mas nós
esquecemos sempre que as máquinas captam muito mais do que queremos
mostrar. Esconder, até escondemos, mas nem reparamos que o macaco que
andamos a esconder está com o rabo de fora e só não vê quem não quer.
Quase que diria até que nessa situação andamos a subestimar a
inteligência de quem nos rodeia. Mas um bode expiatório cai sempre muito
bem. É tão mais fácil quando erramos e descarregamos as nossas águas
poluídas em rio alheio. O pior é quando as águas não se misturam e o
cheiro fica a pairar na nossa cabeça, à espera de encontrar uma brecha
para se alojar na nossa consciência. E encontra, encontra sempre, por
mais anos que passem. E quando isso acontece, a alegria desaparece, as
rugas aparecem profundas como levadas, as olheiras penduram-se como
cachos de uva passa, os sorrisos passam a simples esgares, as noites de
amor passam a ser a três, porque a assombração-consciência, não se faz
de rogada e aparece sempre, mesmo sem ser convidada. A vida de sonho,
transforma-se num pesadelo e chega-se à conclusão que fugir às
responsabilidades e não assumir as consequências dos nossos atos, não
compensa. É tão mais fácil e saudável o diálogo, a coragem de enfrentar.
Falar é bom, mas saber escutar é muito mais vantajoso. Afinal temos
duas orelhas e uma boca por alguma razão. Mas a estrela do filme de
amor, não voltou atrás porque a teimosia é muito mais forte que a
humildade e pedir perdão é para fracos, não para homens insuflados de
razão e perfeição. Quanta ignorância! O que é que quem ama não perdoa e
esquece? Tudo, ainda que doa. Mas só sabe disso, quem tem sensibilidade e
maturidade para perceber que o amor transcende o sexo, a vaidade, a
maldade, a burrice e principalmente a razão. O amor é um sentimento que
nos faz perder a noção do certo e do errado e se assim não for, não é
amor. Mas, também nos permite ter a capacidade de entender o outro,
praticar o perdão e a aceitação, porque por mais que alguém se queira
excluir, à nascença já somos todos pecadores. A perfeição nunca
encontraremos em nós, por isso, não podemos exigi-la aos outros.
Deixemo-nos de superioridades…a simplicidade assenta-nos melhor, em
qualquer ocasião. Amemos simplesmente e aproveitemos os muitos créditos
que a vida nos vai dando, porque não são eternos!
Helena Santos