domingo, 24 de maio de 2015

PERTO DE DEUS

Gosto de estar perto do céu ou de Deus, quando me sinto sem chão. Por isso, escalei a montanha mais alta que os meus olhos alcançaram.

Fui à procura de ti, ao encontro de mim.

Encontrei um céu azul alegria, umas nuvens transparentes e um sol ardente, mas consciente de que embora me encontrasse só naquele lugar perdido de tudo, era frágil e ele teria de ser prudente. O vento não me castigou a pele delicada como uma flor, própria de quem se alimenta de amor. Em vez disso, refrescou a minha mente que fervia de tão impaciente e ansiosa, por não saber que desfecho teria a minha incessante procura. Sabia que podia terminar numa queda vertiginosa.

À chegada, avistei um Condor. Elegante nas suas vestes, corpo cuidado e discreto. De longe, observou-me. Todos os meus movimentos controlou, mas não se manifestou, como se não quisesse interromper um ritual. Então, simplesmente esperou, voando em círculos, mantendo uma certa distância como se estivesse a proteger-me ou apenas a dar-me as boas vindas, com algumas subtis piruetas.

Ali estava eu, entregue nem eu mesma sabia a quê ou a quem. O silêncio que ouvia, enchia-me a alma de certezas incertas e o horizonte aos meus pés, mostrava-me caminhos inexistentes. Estava espiritualmente perdida, com dois meios de salvação: a beleza da natureza nas suas formas e cores e um Condor que desde o início me adoptou, assim o senti. Cheguei com as mãos cheias de nada, mas regressaria com o coração cheio de tudo… tinha me prometido.

Munindo-me de toda a força que me restava, gritei perguntas ao Universo, esperando que as respostas chegassem em eco. O eco chegou, mas as respostas não as facultou. Uma lágrima rebolou pelo meu rosto. O Condor que tudo observou, de mim se aproximou e fixando os meus olhos, perguntou o que fazia ali uma delicada flor que aparentava ser um forte, mas carregava tanta dor.

Respondi que procurava um amor perdido, que já tentara resgatar e não havia conseguido. Disse-me que o amor nunca se perdia e nunca se ganhava, simplesmente se sentia e que o meu sempre esteve comigo. Sugeriu que sentisse como enchia o meu coração e veria que nada tinha sido em vão.

Regressei à vida no dorso de um Condor, que me mostrou que nunca há lugar para a dor, sempre que a prioridade for o amor que sentimos, não o que gostaríamos que alguém sentisse por nós e que só assim poderemos nos vestir de serenidade.

Helena Santos

segunda-feira, 18 de maio de 2015

AMANTE DAS PALAVRAS

A ti, amante
Que te passeias pela avenida das palavras
Olhas, olhas, mas nada vês para além de ti
Simplesmente porque há letras caídas no chão
Essas letras, representam a humildade
E estão caídas, para chamar a tua atenção
Descalça-te, põe os pés no chão e experimenta a sensação
Da simplicidade
Apanha letra a letra, coloca-as na alma de cada palavra
Terás a palavra correta, mas nunca a perfeição
Por mais que os erros voem e atinjam o nosso coração
Há sempre uma forma de entendimento, de compreensão
Não se ama as palavras, sem entendê-las
E de nada serve entendê-las, se não fizermos uso delas
E se o uso não for em prol do que nos torna pessoas melhores
Então,
Para que servem elas, as PALAVRAS?


Helena Santos

terça-feira, 5 de maio de 2015

MAIO TATUADO

Maio, mês tatuado
Com um beijo roubado
Mil desejos de um falso
E um amor representado
Num palco criado
Com ilusões camufladas
Onde excitações plásticas
Vomitaram prazer
E afogaram um sonho
Que só queria amanhecer
Iluminado por um sol
Ardente e brilhante
Testemunhado por um mar
De ondas serenas
Onde ainda hoje
Descarrego as minhas dores
As minhas mágoas
E ele, o mar, com carinho
Lambe as minhas feridas
E no seu colo, eu me aninho!


Helena Santos

segunda-feira, 4 de maio de 2015

PERDÃO MÃE!
Querida Mãe,
Sendo hoje o teu dia, o nosso dia, aproveito para te confessar algo que me tem atormentado, na minha condição de filha e de mãe.
Tu és parte do meu mundo, não só por me teres parido, mas por teres sabido sempre sentir e agir como uma verdadeira Mãe. Há tantas mulheres que pariram e nunca foram mães. Tu és fonte de vida, eu também sou fonte de vida. E só depois de ter esse estatuto, fui percebendo o que nunca tive capacidade de entender, enquanto filha. Ser Mãe, é uma flor que vai desabrochando e em cada pétala está um ensinamento, uma aprendizagem. Nunca valorizei o suficiente, as tuas preocupações, os teus receios, as tuas aflições. Para mim eram sempre exageradas. Claro que mudei de opinião. Quando? Quando me tornei Mãe. Podia enumerar várias situações e atitudes impensadas, da minha parte, mas vou focar-me só numa. Quando eu me ausentava de casa, da cidade, do país, por algumas horas, por um dia, ou por vários dias, não conseguia entender por que querias que ligasse a dizer onde estava, ou a que horas chegava; se a viagem tinha sido boa, se tinha chegado bem… Por não entender, nunca o fiz, limitava-me ao “já vou” e “já cheguei”. Hoje, como Mãe, é uma das situações que mais me angustia. Não sei se é castigo, mas tu sabes como eu sofro com as ausências do teu neto. É que ele cada vez que viaja, vai para mais longe e fica mais tempo. Um dia destes sai deste mundo e vai de férias para outro que irá descobrir, e, continuará a agir como se simplesmente tivesse saído de casa para ir só ali à praia, surfar. Claro que reclamo, mas assim como eu, ele também acha que não há necessidade de ligar, ou de ligar tantas vezes, quando está tudo bem. As más noticias chegam rápido, diz ele e ainda se ri. Acho isso tão importante, que sendo hoje o teu dia, o nosso dia, quis que soubesses como agora te entendo e como me dói saber que te fiz sofrer, embora sem intenção.
Peço que me perdoes, Mãe, por tudo e agradeço o que me tens mimado e serenado quando choro no teu colo, por falta de notícias.
Mas por que é que ele não liga, nem atende o telemóvel? Será que não percebe a minha preocupação? Ele está no outro lado do mundo… Não, ele não percebe, assim como eu não percebi, Mãe. E há dias em que parece que não sinto o chão, de tão apertado estar o meu coração. É tão grande a minha aflição, Mãe. É meu filho e eu amo-o, mais do que à minha própria vida, assim como tu me amas e eu te amo. Mas o que eu quero, mesmo, é que ele seja feliz, assim como tu sempre quiseste que eu fosse. Sou grata por te ter sempre, para afagares a minha mão!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

JANTAR COM A MORTE

A Morte bateu-me à porta e convidou-me para jantar. Não foi a primeira vez que solicitou a minha pessoa, para se fazer acompanhar. Hesitei, por alguns momentos. Mas lembrei-me que a Vida se esqueceu de mim e já nem o meu nome deve saber. Deixou de me ligar, visitas nem falar e convites nem pensar. Não sendo eu de me entregar sem lutar, decidi insistir e fazer-me notar. Nunca consegui contacto para poder dialogar, estava sempre ausente. Recados fui deixando, à espera fui ficando, mas o resultado foi o mesmo…total indiferença. Como me sinto sem argumentos para nova investida, decidi silenciar a minha revolta e simplesmente ver o tempo passar. Agora que a Morte se fez anunciar e da minha companhia faz questão de desfrutar, vou aceitar o convite. Se ela, a Morte, há tanto tempo por mim anda a penar, ou é por eu ser muito boa, ou por ser muito má. Mas muito, sou em alguma coisa, com certeza. E entre morrer lentamente à espera que a Vida se lembre de mim, olhe para mim e a entregar-me logo nos braços da Morte, prefiro a última opção. Quem muito espera, ou alcança ou desespera. Como a única diferença que encontro entre a Vida e a Morte, é o factor tempo…uma tem, a outra não…. acho que tomei a decisão certa e sinto-me leve como o vento.
Vou jantar com a Morte e sinto que para ambos, será uma noite de sorte.


Helena Santos

segunda-feira, 20 de abril de 2015

COSENDO

Das linhas com que me coso
Todos os dias desato nós
Há sempre um pedaço da vida, rasgado
Que com paciência vou cosendo
Sem precisar ser remendado
Os ventos passam
Mas deixam a fragilidade no sentir
E a cada rasgão
O coser torna-se mais doloroso
As linhas mais frágeis
Os nós, esses, alguns sem solução
E da alma ao coração
Vou cosendo, cosendo
Até chegar ao dia
Que só
Ou nem…. remendando!


Helena Santos