segunda-feira, 20 de abril de 2015

COSENDO

Das linhas com que me coso
Todos os dias desato nós
Há sempre um pedaço da vida, rasgado
Que com paciência vou cosendo
Sem precisar ser remendado
Os ventos passam
Mas deixam a fragilidade no sentir
E a cada rasgão
O coser torna-se mais doloroso
As linhas mais frágeis
Os nós, esses, alguns sem solução
E da alma ao coração
Vou cosendo, cosendo
Até chegar ao dia
Que só
Ou nem…. remendando!


Helena Santos

sábado, 11 de abril de 2015

PEDAÇOS PERDIDOS

Saudade…

Às vezes enche-nos a alma
De uma melodia estranha e intensa
Que mesmo de olhos abertos
Nos transporta por completo
Àqueles momentos de pleno fascínio
Em que por mais que o tempo passe
Somos capazes de visualizar as gotas de suor
Sentir os dedos a deslizar pelo nosso corpo
Inalar um cheiro que só existiu naquele exacto momento
E atingir um grau de prazer
Que nos proporciona uma felicidade abismal
Possível pela força do amor e da esperança
Que se instala em nós
E nos leva à espera incessante de recuperar
A pessoa amada
É um sentimento saudável que acalma
Nos faz saltar da cama com um sorriso aberto
E brilho no olhar
Sinal de que tudo o que aconteceu valeu a pena
Ainda que tenha chegado ao fim
Porque deixou um gosto a mel
No corpo e na alma.


Outras vezes há, em que é puro inferno
E sobre o inferno não há muito a dizer
As lembranças são boas
Mas provocam uma vontade imensa de destruição
E rejeição de tudo que possa trazer felicidade
Porque a felicidade ficou associada ao passado
Ao que terminou ou que se perdeu
É uma saudade dolorosa, sofrida
Com mágoas, rancores, vinganças, tolerância zero
O amor, razão de viver, transformou-se em dor
É o tudo ou nada
Que carrega com as pessoas para o precipício
Perde-se a pessoa amada
Pensa-se que se perdeu a vida e age-se como tal

O amor é isso: ou nos mata, ou nos dá vida!

As pessoas são geridas por sentimentos e os sentimentos são complexos. Cada pessoa pinta o amor com a sua cor preferida. O importante, é, conseguir manter a cor mesmo que a pessoa amada deixe de partilhar connosco, a Vida.

Helena Santos

terça-feira, 31 de março de 2015

DIA FELIZ

Hoje acordei perfume
Livrei-me do azedume
Desci à fonte do querer
E recuperei a energia perdida
Nas noites em que a escuridão era tal
Que já nem o corpo alcançava a vida
Pintei-me de arco iris
E os meus longos cabelos negros
Enfeitei-os com cachos de amizade pura
Sem prazo, sem preço, nem censura
Só liberdade, respeito e doçura
Para assim se entregarem ao vento
Soltos, na maior aventura
E vesti-me de gala, a vida merece
Um longo vestido cor de candura
Bordado a sorrisos que espelham magia e ternura
Os meus pés, envolvi-os em nuvens de algodão
Não vá por distração, pisar algum coração
E não quero provocar um só arranhão
Os sentimentos merecem a máxima atenção
Assim, sim…
Com leveza na alma, nem as nuvens mais negras
Conseguirão boicotar o brilho do sol
O céu está tão azul…
E nós, só temos de desfrutar
E nos deixar enfeitiçar
Hoje tenho a sorte a me bafejar
Trouxe-me cor e harmonia
Gargalhou comigo
E comecei o dia, feliz
Tal como queria!


Helena Santos

segunda-feira, 30 de março de 2015

NÃO PRESTO, MAS AMO!

Sim, não presto mas já prestei…
Quando os cabelos brancos eram apenas raios de luz, a frontalidade uma virtude e a lealdade um tesouro a preservar. Não presto mas sou tudo que de mim resto, depois de abraçar o tempo, mesmo sem tempo; silenciar a dor com gritos de cor; beijar o amor com dedos apaziguadores; ouvir e calar; servir sem reclamar e ensinar a voar quem mal sabia andar. Já prestei e isso eu sei, enquanto transformei noites em dias, tristezas em alegrias, com impossíveis fiz magia e transformei medos em valentias. Tantas vidas apagadas transformadas em verdadeiras fontes de luz que jamais deixaram de brilhar. Muito me enriqueceu e um enorme prazer me deu. Reconhecimento? Chega-me o que recebo do Céu.
Da vida nada me queixo. Sorri, ri, gargalhei, chorei, errei, amei, fui amada, magoei e fui magoada, pedi perdão e perdoei…mas nem sempre fui perdoada. Agora, lágrimas, outros olhos chorarão, porque dos meus nem diamantes cairão. Pintei a revolta com a cor da harmonia e a desilusão, afoguei-a no mar da minha alegria. Decidi só respirar calmaria.
Cruzei-me com o vento e gritou-me que eu não prestava, que o que eu dizia nada tinha sentido e o que fazia era incomodativo. Mas por que motivo? Na, não deve ser nada comigo, mas fiquei a pensar naquilo. Que terá acontecido, para me ter ofendido? Acho que primeiro devia ter falado comigo, ter esclarecido. Talvez tenha se confundido. Sempre fomos amigos e sabe que pode contar sempre comigo. Espero quando o encontrar, novamente, esteja mais tranquilo.
Perdem-se amigos por medo da frontalidade, do diálogo…esta é a triste realidade!
Ou será que não presto mesmo e não dei por isso? E como poderia dar, se não sei o que é isso de prestar e não prestar? Alguém me sabe explicar? Não concordo nada com essas definições. Mas tenho a certeza que já prestei…quando tudo tive, tudo fiz e tudo dei! Eu acho que é mesmo assim, é tudo normal…quando o mar deixa de ter boas ondas para surfar, deixa de prestar. Isso agora é só o que eu deduzo….eu nem sei nadar, quanto mais nas ondas deslizar! É que para mim, o mar é sempre prestável…isso é incontestável….assim como todas as coisas e todas as pessoas.
Posso até não prestar, mas garanto-vos que já prestei…só que me esgotei! Eu não presto, tu também não e outros assim serão. E então? Qual a admiração? Acreditamos na perfeição? Ora….e se nos preocupássemos mais com a afeição? Isso de prestar ou não, é tão relativo e cada um tem a sua opinião, há que respeitar. Podemos não prestar para uns, mas sermos muito importantes para outros…É bom haver gostos diferentes! Ainda que não preste, há tanta gente a gostar de mim, tanta gente que precisa de mim…e eu a precisar de todos. Eu não presto, mas amo…e sou amada!
A Vida ali a passar e tanta gente a não notar, a não ver…nem sequer olhar… Isso sim, é importante salientar…e não o facto de eu prestar, ou não prestar.

Helena Santos

domingo, 22 de março de 2015

NUNCA SE DESISTE!

O amor não se foi
O desejo não acabou
A raiva de onde veio
Se eu ainda aqui estou?
É amor camuflado,
Disfarçado, envergonhado?
Ou estás mesmo equivocado?
Quem ama, quer ser amado
E não há nada de errado
Não ignores o brilho do passado
É digno de ser lembrado
Mas o presente está à tua frente
E o que sinto é tão mais doce
Do que era antigamente
É mais consistente, diferente
E não esqueças
O tempo não é bumerangue
Quando vai, não volta
E eu já bati tantas vezes à tua porta
Sim, não abriste e isso deixou-me triste
Mas tristeza não é infelicidade
E para dizer a verdade
Nada me faz perder a vaidade
De ter brilhado ao teu lado
Nem mesmo a idade
E adivinho o mesmo brilho
No teu olhar, agora
O amor não se acaba
E de ti não foi embora
Preferes calar, sufocar
Até a vida se apagar
Que posso fazer, se deixas o medo te dominar
E teimas em mim não confiar, não acreditar?
Às vezes preciso gritar, para exorcizar
Mas não desistirei, nem deixarei de amar
Até que Deus para junto dele, queira me levar!


Helena Santos

quinta-feira, 19 de março de 2015

LEMBRAS-TE PAI?

Olá, Paizinho. Chegaste primeiro do que eu? Claro, estás em vantagem...és um anjo e neste sítio, estamos mais perto do céu. Sim, hoje acordei com o meu lado “muito bom” e estou feliz. Não, não vou ralhar contigo, vamos rir juntos. Sinto que tu estás cheio de vontade e eu preciso muito. Fui ao fundo do meu coração e de tantas, escolhi duas travessuras minhas, que lá estão religiosamente guardadas e que achei que ias gostar. Quero que tenhas um dia especial, diferente.
Anda, vamos nos sentar, saborear a paisagem e aproveitar o tempo.
Lembras-te o que aconteceu quando pintei as unhas? Não? Ahahahahah. Então escuta:
Foi numa das nossas estadias na roça, quando tinhas de cuidar do café. Eu devia ter uns cinco/seis aninhos, não estou certa, mas tenho a certeza do que aconteceu. A mãe gostava de pintar as unhas e quando eu lhe pedia para pintar as minhas, dizia sempre que tu não deixavas. Num dos dias que saíste de manhã e foste para a tonga, aproveitei para pôr o meu plano em funcionamento. Tu só vinhas depois de eu e a mãe comermos, então, esperei que ela fosse para a cama descansar e tratei da minha manicura. Fui aos vernizes da mãe, escolhi o vermelho e sem mais demoras pintei as minhas unhitas, ou melhor, borrei-as de vermelho. Como pensava que demoravam muito a secar, pus-me no varandim com os braços esticados e os deditos muito abertos, para secarem bem. Chegaste antes da mãe acordar e foi o meu azar. Eu toda vaidosa, com o meu vestido azul com laçarote vermelho na cintura e unhas vermelhas, não podia estar mais feliz. Sempre de braços esticados e sorridente, dirigi-me a ti. Não esperava o que ia acontecer. Olhaste para as minhas unhas, agarraste-me num braço e deste-me tamanhas palmadas, que levantei os pezitos do chão. E claro, a mãe acordou e teve o trabalho de me limpar as unhas e me enxugar as lágrimas.
Já te lembras? Claro. Ahahahahah. Muito gostavas tu de nos “chegar a roupa ao pelo”. Ri-te à vontade, gosto de te ver rir.

E do meu corte de cabelo, lembras-te? Adoro esta. Ouve.
Algum tempo depois das unhas, pedi que me cortassem o cabelo, que tu e a mãe insistiam em mantê-lo comprido. Como o meu pedido foi ignorado, pus a cabecita a funcionar e claro, mais uma vez saiu asneira. Também numa das nossas “férias do café”, num dia em que mais uma vez tinhas ido para a tonga, era a tua vida, a mãe tinha ido à outra ponta do varandim à casa do tio e com os manos e primos no mato, a brincar ou a caçar, não tinha ninguém a atrapalhar. Fui à caixa de costura da mãe, peguei na tesoura, pus-me à borda do varandim e inclinei a cabeça para a frente. Enquanto vi cabelo cortei e quando deixei de ver, levantei a cabeça e meti a tesoura no cabelo, dando mais algumas tesouradas. E assim fiquei, linda sem igual…pensava eu. Só me assustei quando vi a mãe ao fundo do varandim a dirigir-se para mim e quando chegou a uma distância razoável, vi-lhe no rosto uma expressão de filme de terror. Aí o meu pequeno coração começou a acelerar. Quando se juntou a mim, só disse: quando o teu pai chegar, “dá-te o arroz”. Comecei a apanhar os cabelos do chão e a pedir à mãe para os colar na minha cabecita, já adivinhava que não iria gostar do teu “arroz”. Aliás, ninguém gostava. Quando chegaste e olhaste para mim, fizeste a mesma expressão de filme de terror. Mas ao contrário da mãe, pegaste em mim, prendeste a minha cabecita entre os teus joelhos e claro, levei uma boa dúzia de palmadas no rabo. Depois…depois pegaste na tesoura e foste acabar de fazer o corte da moda, já que eu tanto queria. Ahahahahah. Ninguém imagina como eu fiquei, mas eu lembro-me: fiquei muito FEIOCAAAA. Pena não ter fotos. A partir daí nunca mais quis que me cortassem o cabelo. O máximo que a mãe podia fazer, era dar um jeitinho às pontas.
Já não te lembravas! Mas eu lembro-me porque para além de ficar feioca …ainda levei uma surra. Não nos perdoavas…Mas nós também não aprendíamos. Aliás, as tareias já faziam parte do crescimento. Estás a rir? De mim ou para mim? Tinha tantas saudades de te ver rir!!!

Fui buscar estes tesouros porque foram muito especiais para mim. Embora eu fosse muito pequena, ficaram gravados na minha memória, com outros tantos e lembro-me de todos com muito carinho, saudade e dou sempre umas boas gargalhadas….e tinha a certeza que irias gostar de recordar.

Queres mais? Podia contar a das “gargalhadas”, do “xixi”… mas não. Por agora chega, Pai. Se alguém nos ouve, lá se vai a minha reputação.
Só queria que passasses o teu Dia do Pai, descontraído e alegre, com boas recordações da minha infância. Sim, eu tive uma infância muito feliz e agradeço-te, Pai.

Achas? Como? Eu não sou escritora, nem poeta, Pai…sou só tua filha e amo-te muito! Mas podemos falar nisso noutro dia. Hoje o dia é teu, não meu.
Espero que tenhas gostado do presente… Gostaste muito? Que bom, fico feliz.

Agora é hora de regressar. Os anjos amigos que vieram contigo, já estão a chamar-te. A vossa Luz já está a brilhar.

FELIZ DIA, PAIZINHO!

Até breve.

Helena Santos