LEMBRAS-TE PAI?
Olá, Paizinho. Chegaste primeiro do que eu?
Claro, estás em vantagem...és um anjo e neste sítio, estamos mais perto
do céu. Sim, hoje acordei com o meu lado “muito bom” e estou feliz. Não,
não vou ralhar contigo, vamos rir juntos. Sinto que tu estás cheio de
vontade e eu preciso muito. Fui ao fundo do meu coração e de tantas,
escolhi duas travessuras minhas, que lá estão religiosamente guardadas e
que achei que ias gostar. Quero que tenhas um dia especial, diferente.
Anda, vamos nos sentar, saborear a paisagem e aproveitar o tempo.
Lembras-te o que aconteceu quando pintei as unhas? Não? Ahahahahah. Então escuta:
Foi numa das nossas estadias na roça, quando tinhas de cuidar do café.
Eu devia ter uns cinco/seis aninhos, não estou certa, mas tenho a
certeza do que aconteceu. A mãe gostava de pintar as unhas e quando eu
lhe pedia para pintar as minhas, dizia sempre que tu não deixavas. Num
dos dias que saíste de manhã e foste para a tonga, aproveitei para pôr o
meu plano em funcionamento. Tu só vinhas depois de eu e a mãe comermos,
então, esperei que ela fosse para a cama descansar e tratei da minha
manicura. Fui aos vernizes da mãe, escolhi o vermelho e sem mais demoras
pintei as minhas unhitas, ou melhor, borrei-as de vermelho. Como
pensava que demoravam muito a secar, pus-me no varandim com os braços
esticados e os deditos muito abertos, para secarem bem. Chegaste antes
da mãe acordar e foi o meu azar. Eu toda vaidosa, com o meu vestido azul
com laçarote vermelho na cintura e unhas vermelhas, não podia estar
mais feliz. Sempre de braços esticados e sorridente, dirigi-me a ti.
Não esperava o que ia acontecer. Olhaste para as minhas unhas,
agarraste-me num braço e deste-me tamanhas palmadas, que levantei os
pezitos do chão. E claro, a mãe acordou e teve o trabalho de me limpar
as unhas e me enxugar as lágrimas.
Já te lembras? Claro. Ahahahahah. Muito gostavas tu de nos “chegar a roupa ao pelo”. Ri-te à vontade, gosto de te ver rir.
E do meu corte de cabelo, lembras-te? Adoro esta. Ouve.
Algum tempo depois das unhas, pedi que me cortassem o cabelo, que tu e a
mãe insistiam em mantê-lo comprido. Como o meu pedido foi ignorado, pus
a cabecita a funcionar e claro, mais uma vez saiu asneira. Também numa
das nossas “férias do café”, num dia em que mais uma vez tinhas ido para
a tonga, era a tua vida, a mãe tinha ido à outra ponta do varandim à
casa do tio e com os manos e primos no mato, a brincar ou a caçar, não
tinha ninguém a atrapalhar. Fui à caixa de costura da mãe, peguei na
tesoura, pus-me à borda do varandim e inclinei a cabeça para a frente.
Enquanto vi cabelo cortei e quando deixei de ver, levantei a cabeça e
meti a tesoura no cabelo, dando mais algumas tesouradas. E assim fiquei,
linda sem igual…pensava eu. Só me assustei quando vi a mãe ao fundo do
varandim a dirigir-se para mim e quando chegou a uma distância razoável,
vi-lhe no rosto uma expressão de filme de terror. Aí o meu pequeno
coração começou a acelerar. Quando se juntou a mim, só disse: quando o
teu pai chegar, “dá-te o arroz”. Comecei a apanhar os cabelos do chão e a
pedir à mãe para os colar na minha cabecita, já adivinhava que não iria
gostar do teu “arroz”. Aliás, ninguém gostava. Quando chegaste e
olhaste para mim, fizeste a mesma expressão de filme de terror. Mas ao
contrário da mãe, pegaste em mim, prendeste a minha cabecita entre os
teus joelhos e claro, levei uma boa dúzia de palmadas no rabo.
Depois…depois pegaste na tesoura e foste acabar de fazer o corte da
moda, já que eu tanto queria. Ahahahahah. Ninguém imagina como eu
fiquei, mas eu lembro-me: fiquei muito FEIOCAAAA. Pena não ter fotos. A
partir daí nunca mais quis que me cortassem o cabelo. O máximo que a mãe
podia fazer, era dar um jeitinho às pontas.
Já não te lembravas!
Mas eu lembro-me porque para além de ficar feioca …ainda levei uma
surra. Não nos perdoavas…Mas nós também não aprendíamos. Aliás, as
tareias já faziam parte do crescimento. Estás a rir? De mim ou para mim?
Tinha tantas saudades de te ver rir!!!
Fui buscar estes tesouros
porque foram muito especiais para mim. Embora eu fosse muito pequena,
ficaram gravados na minha memória, com outros tantos e lembro-me de
todos com muito carinho, saudade e dou sempre umas boas gargalhadas….e
tinha a certeza que irias gostar de recordar.
Queres mais? Podia
contar a das “gargalhadas”, do “xixi”… mas não. Por agora chega, Pai. Se
alguém nos ouve, lá se vai a minha reputação.
Só queria que
passasses o teu Dia do Pai, descontraído e alegre, com boas recordações
da minha infância. Sim, eu tive uma infância muito feliz e agradeço-te,
Pai.
Achas? Como? Eu não sou escritora, nem poeta, Pai…sou só tua
filha e amo-te muito! Mas podemos falar nisso noutro dia. Hoje o dia é
teu, não meu.
Espero que tenhas gostado do presente… Gostaste muito? Que bom, fico feliz.
Agora é hora de regressar. Os anjos amigos que vieram contigo, já estão a chamar-te. A vossa Luz já está a brilhar.
FELIZ DIA, PAIZINHO!
Até breve.
Helena Santos