terça-feira, 17 de março de 2015

A PRIMAVERA AINDA NÃO CHEGOU

Ainda não se mudou, mas aos poucos vai deixando sinais seus, nos meus canteiros. As árvores foram tomadas de assalto por bandos de pássaros que chilreiam como se tivessem encontrado o tesouro perdido, ou regressado à escola primária e reencontrado os amiguinhos, tal é o chinfrim, a algazarra. Observo-os pela vidraça, oiço-os e acho graça. Se tento aproximar-me, evaporam-se como fumo no ar, mas acabam por voltar e poisar na chaminé que está ali, mesmo a calhar. E com um pouco de paciência, deixo-me ficar ali como que a tratar das plantas e eles vão-se chegando, mantendo uma distância de segurança, picando a terra dos canteiros, empoleirando-se num pessegueiro e quase que os consigo tocar. É maravilhoso.
A desolação do Inverno, praticamente já se desvaneceu. O sol vai se chegando, vai nos aquecendo e vamos achando a brisa, simpática. As flores muito timidamente vão se maquilhando e perfumando. As roseiras a despontar, os pessegueiros a florir e a encantar-me. Por que será que nos dão tão belas flores antes das folhas? Os jarros já se sentem completamente à vontade e não param de olhar para mim, a chamar-me, porque querem conversar, querem atenção e gostam de ser afagadas, pelas minhas mãos. Os lírios roxos são tão lindos, só é pena serem tão sensíveis e durarem tão pouco. Há outras flores a colorir os meus canteiros, mas por ignorância, não sei os nomes, mas delicio-me com o que vejo e com os cheiros.
É tudo tão mágico, tão cheio de vida.
As plantas arrebitam, as lagartixas já me desafiam e os caracóis não param de se reproduzirem e se passearem pelos canteiros. Parecem inofensivos, mas rendilham as folhas das plantas, por inteiro. Uns verdadeiros artistas, na clandestinidade.
É tão enriquecedor ter a oportunidade de ver a natureza no seu melhor!
Até a salsa, os coentros e o alecrim, já sorriem para mim, tão vistosos e elegantes, enquanto esperamos que a hortelã se junte a nós, para o chá revigorante do fim de tarde. As minhas alfaces é que dizem ainda não se sentirem confiantes para desfilarem em público. Preferem continuar mais algum tempo no SPA privado e dizem que quando saírem, será para arrasar. Aguardo.
A Primavera ainda não se instalou, mas não demora, já avisou.


Helena Santos

terça-feira, 10 de março de 2015

E O OUTRO?

Todos os dias
Oiço histórias mirabolantes
Leio episódios impressionantes
E acho preocupante
Os humanos destroem-se
À velocidade da luz
Quase ninguém olha para o outro
Quase ninguém ajuda o outro
Quase todos falam do outro
Quase todos se juntam contra o outro
Quase todos julgam o outro
E quase ninguém quer saber
Se o outro precisa de ajuda
Se o outro tem algo a dizer
Se o outro está inocente
Se o outro tem direito a se defender
Quase ninguém se importa,
A menos que ganhe algo em troca
A culpa?
É do nosso espelho
Que só nos mostra a beleza exterior
Não permitindo que vejamos o íntimo
Porque a aparência
Passou a ser mais importante
Do que a decência
E o que nós precisamos
É resgatar o conteúdo, ou seja,
O respeito pelo outro
E quem sabe até, em primeiro lugar
O respeito por nós mesmos.


Helena Santos

quinta-feira, 5 de março de 2015

HÁ DIAS ASSIM!

Há dias em que a tristeza se apodera de mim
E nem uma flor desabrocha no meu jardim
Para que com a sua beleza e luz
Eu possa expulsar essa escuridão
Que não tem fim

Há dias em que a tristeza se apodera de mim
E por mais que o vento cante
E as nuvens dancem
Não conseguem fazer com que a minha alma voe
E os meus medos se espantem
Há dias em que a tristeza se apodera de mim
E embora saiba o que lhe poria fim
Sei e sinto que não está ao meu alcance
Está tão longe como o sol ou a lua
E não imagina como me faria feliz
Se “poisasse” na minha rua
Há dias em que a tristeza se apodera de mim
Porque as injustiças multiplicam-se como cogumelos
Os afetos são esquecidos ou humilhados
E das palavras tolerância, humildade e lealdade
Poucos sabem o significado
Há dias em que a tristeza se apodera de mim
E mesmo com a alegria do mar
Dos meus olhos saltam pérolas de sal
E as gaivotas, como que por magia
Com elas tecem um lindo colar
Que me oferecem, para me animar
Há dias em que a tristeza se apodera de mim
E hoje
É um desses dias!

Helena Santos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

MORANGOS

Os morangos que me ofereceste
Eram doces pedaços de ti
Foram caixas e mais caixas
Eu comi, comi e tanto me ri

Os morangos que de ti comi
Tinham alma, eram vida
E adoçaram o que por ti sentia
Sempre na chegada, nunca na partida
Os morangos que quis em ti saborear
Vinham recheados de bem querer
Perfumados com desejos de me teres
E servidos em boca de hortelã
Os morangos que por ti não recusei
Arrepiaram o meu ser
Orvalharam a minha pele
E molhados, degustei-os com prazer
Os morangos com que nos amamos
Vestiam-se de calda de provocação
Que escorria pelo meu corpo
E lambuzava-me sem contenção
Os teus morangos, fizeram história
O sabor ficou em mim
E ainda hoje, invadem a minha memória!

Helena Santos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FELIZ ANIVERSÁRIO, PAI...

Se sei que hoje é o teu aniversário? Sim Pai, sei…82 anos. E então? Achas que isso me impede de dizer o que sinto? Claro que não e tu és meu Pai, conheces-me como ninguém. Aliás, nisso e em tantas outras coisas, eramos iguais. Sabes que nada me faz calar, quando alguém fere o meu coração e me abandona sem direito a despedida ou explicação. E só as pessoas que eu amo conseguem esse feito e mesmo tendo conhecimento, me magoam do mesmo jeito. Não, não me entendem, Pai. Ou será que sou eu que não as entendo? As outras? Nem tomo conhecimento do que dizem ou fazem…E foi o que fizeste. Partiste pela madrugada, enquanto eu descansava esperando o amanhecer, para ir te ver. Preferiste morrer, a ter de ver mais um dia nascer sem que nada pudesses fazer. E eu? Não devia ter uma palavra a dizer? Talvez não, por isso nem pediste a minha opinião. Mas podias ter esperado só mais um bocado. Faltava tão pouco para podermos estar lado a lado.
Imagina como fiquei, quando tocou o telefone e despertei em sobressalto, do cansaço que durante dias me entorpeceu e naquela noite me venceu. Dei um salto da cama e gritei: o meu Pai. Confirmado, tudo tinha terminado. Não chorei, não falei. Eu tanto supliquei para que de mim não te levasse, mas Ele não me escutou, ou simplesmente ignorou.
Fica descansado, o que tenho para te dizer continua guardado até eu te encontrar, aí, nesse lugar sagrado. Vais ter de me ouvir, vais ter se saber o quanto tenho sofrido, por não teres ficado comigo, por não teres por mim esperado. Por que não me levaste contigo?
Tu sabes, Pai, eu nunca fui de histórias de encantar. É que isso de dizerem que quem morre nunca deixa de estar connosco, não é para mim. Ficam as lembranças e o resto? Os beijos, os abraços, as repreensões, as zangas, as pazes, o colo, o afago de mãos e os olhos em comunhão.... Onde vou buscar tudo isso? Não tenho onde, Pai e preciso tanto. Fazes-me falta. Já passou algum tempo, eu sei, mas que posso fazer? Perdi-te e nunca mais me encontrei.
E sim, Pai, hoje é o teu aniversário e desejo que o festejes em alegria, na paz dos anjos, que são a tua companhia. Afinal, hoje é o teu dia, mereces e se estivesses aqui…era o que faria….uma grande festança, onde AMOR certamente não faltaria e ALEGRIA…ai que alegria seria! AMO-TE, PAI!


Helena Santos

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015



LÁGRIMAS E PALAVRAS

Caiu uma lágrima
e transformei-a numa letra
Veio uma segunda
e juntei-a à primeira
Lágrimas de dor
jorram como de uma torneira
e com tantas letras ao dispor
não tive qualquer problema
em juntar uma e outra,
formar palavras com cor
e compor uma bela poesia
secando a tristeza
e enchendo o coração de alegria.
Criei versos de encantar
com temas que dão sentido à vida,
casei-os com muito carinho
porque queria uma batalha ganha
não uma guerra perdida
E com as letras que sobraram
formei o teu nome
e como purpurinas
espalhei-as e abrilhantei o poema
feito de lágrimas de dor
transformadas em palavras de amor.

Helena Santos