quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Encontro

Finos pedaços de luz
Em pranto atravessam…
À audácia iluminam
Ao consentido beijo que seduz

Na oculta caverna…
Uma imensa treva e cegos de paixão
Em largos rasgos de carinho
Numa equilibrada união

Uma ternura sentida nos lábios
Na fria e extensa solidão…
Salta a rubra cor do coração…
Em escaldantes meigos sentidos

Vividos na nua transparência
Em carícias doces e suaves
Tido em momento de apetência
Cintila nas arrojadas estrelas …

Querido encontro acontecido
Visto pelo simples olhar
De um efémero amar
entorpecido…

Elisabete Bernardo
 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante.
Carlos Drummond de Andrade
 
Muita Paz, Harmonia e Poesia
MOMENTOS NOSSOS...


Momentos meu Mar
momentos não são histórias
momentos são vida
momentos és tu
são explosões cósmicas
de amor e dor
és tu em forma de espuma
rebentação na rocha
desfazendo lentamente ravinas
exasperadas de ti meu Mar.

Momentos somos nós
em contemplações virais
o Sol, a Lua e tudo o mais
apenas testemunham e são cor
nós somos a dor, o amor ...

José Apolónia 

Um pedaço do paraíso

Seguraste a minha mão e sussurraste-me ao ouvido: vem, vou mostrar-te um pedaço do paraíso.
Do cimo da escarpa, a vista era deslumbrante e inesquecível.
Ao fundo, uma enseada abraçava uma língua de mar azul transparente que se fundia, na linha do horizonte, com o céu. A poucos metros da praia uma pequena ilha emergia, timidamente, das águas e dava guarida a um bando de gaivotas.

A brisa salgada afagava a costa e a maré respirava tranquilamente para não acordar o silêncio milenar das conchas.
O teu sorriso sedutor encorajou-me e desci contigo a tosca escadaria de pedra que conduzia à praia deserta, esquecida do mundo, onde o tempo parecia não existir.
As sombras projectadas nas areias douradas eram atravessadas por feixes de luz filtrados pelas brechas escavadas nas rochas que rodeavam a enseada.
Olhámo-nos demoradamente, extasiados pela magia deste momento único e arrebatador…
O brado das gaivotas suspendeu-se no ar quando, nus, mergulhámos no lençol azul do mar, os nossos corpos se fundiram e foram o pulsar da maré.
A vida oferece-nos raros instantes de pura emoção, que nos tocam a alma e guardamos em nós, na ilusão de um dia podermos regressar…
Hoje, voltei àquela praia paradisíaca, para sentir a tua presença, o fulgor dos teus olhos, a lava da tua boca, a centelha do teu corpo a incendiar todos os meus caminhos.
O mar desfolhava-se, em voz dorida, nas areias inanimadas, num entardecer melancólico enfeitado de frio.
Não importa se recordo o que nunca aconteceu…
Regressarei a este céu…essa é a minha maior certeza.
Quem sabe não estarás, um dia, a minha espera à porta do paraíso?

Clara Maria Barata
Tudo


Tudo quanto és, e por tudo quanto foste
Chutada a pontapés, o nosso pentecostes
Em devoção total, rasgada em sacrifício

Sem uso epidural, talhada no suplício

És a Deusa-Mãe, qu'à terra nos brotou

A Jerusalém, qu'a diáspora nos deixou

O ventre da libertação, choro existencial

Extrema ligação, entre o inefável e o real

O apego à vida, nos seus seios torrentes

As saias da guarida, escudo contr'as gentes

O calor, a paciência, o carinho incondicional

O amor, a ciência, naquele ninho lacrimal

A entrega absoluta, a uma causa interna

A uma carne qu'é sua, na realidade baderna

E por mais amargo que seja, o seu verde fruto

Ela reza na igreja, ou ela investe com'um bruto

Porque aquele é a sua vida, e por ele, ela respira

E mesmo maligna ferida, qu'a conduza à sua pira

Ela sabe o seu destino, a sua condição no além

Ela vive p'lo seu menino, ela é o seu tudo, sua Mãe!


Ernesto Ribeiro
 
"MONTANHA"

Olhei para a montanha,

Pensei em ti,
Tentei subi-la,
Escorregava e caía,
Com dificuldade consegui.

Cheguei,
Numa nuvem me sentei
E fundo respirei.

Brilhantes raios de Sol,
Como laços me abraçaram,
Dançavam no ar,
Ao som do vento,
No seu elegante voar.

As coroas de flores que caiam,
O meu rosto enfeitavam,
Uma Santa eu parecia,
Por ti a Deus pedia,
Que para mim,
Voltasses para um dia.

Era visível,
A união do Céu com a terra,
Até a sua energia,
O meu corpo sentia.

De olhos fechados,
Inspirava o ar puro e verdejante,
Num silêncio singular,
Mais perto de Deus me sentia
E ajuda lhe pedia.

Deus,
Sei que estás aqui e peço-Te,
Mostra-lhe o caminho de regresso,
Quero dar ao meu amor,
Felicidade, carinho e calor.

Ele está longe,
Com esperança,
Esta montanha subi,
Mesmo assim não o vi.

Tudo era lindo e completo,
Se ao meu lado estivesses,
O nosso Paraíso seria aqui,
Jamais choraria por ti. 
 
Zulmira Nascimento