Conto Partilhado 2017



CONTO PARTILHADO

Acho que precisamos de abanar um pouco o SORRISOS. Por isso, arranjei um desafio que espero seja abraçado pelo número suficiente de participantes. Será um CONTO PARTILHADO, à semelhança de dois que já fiz em 2012 e 2013, no meu primeiro grupo Jardim de Poesia. Há membros no SORRISOS que me acompanham desde essa altura e que participaram. Como funcionará? Irei apresentar o primeiro capítulo escrito por um membro e os restantes participantes irão escrever um capítulo, dando continuação ao anterior. É só darem asas à imaginação e tenho a certeza de que sairá uma bela história.


     






Titulo: ERA SETEMBRO…


1º Capítulo


Era Setembro. O tempo continuava seco e com o sol a convidar andar ao ar livre. Quem não pôde gozar as suas férias em Agosto,, aproveitava o sol de fim de Verão.

Heitor, foi um desses veraneantes que se sentia um sortudo pelo facto de ter o tempo a jeito, em Setembro. Volta e meia pensava: Que sorte, noutros tempos já chovia a cântaros por esta altura. Na realidade o aquecimento global modificou muito o tempo.

Amante da Natureza e das caminhadas, resolveu dar um passeio a pé pela ecopista entre São Pedro da Torre e Vila Nova de Cerveira. Já não era a primeira vez que fazia esse trajecto. De cada vez que o fazia, descobria novos pontos de interesse para fotografar. Gostava especialmente desse troço de pista, embora na altura já houvesse ecopista desde Monção até Viana do Castelo.

Nesse dia, a combinação do sol com a água do rio Minho, faziam com que cada fotografia fosse um autêntico postal ilustrado. Estava a tentar fotografar um recanto que envolvia a vegetação existente na beira do rio e as suas águas, quando surge uma senhora e lhe pede que a fotografasse naquele ponto com a máquina dela, pois também achou bonito aquele local. Num gesto de cavalheiro, acedeu sorridente ao seu pedido.

Ela, com o seu ar solto e livre de preconceitos, escolheu um espaço entre duas árvores de forma a que se visse bem aquele recanto do rio.

O seu sorriso, um pouco trabalhado mas lindo aos olhos de Heitor, ficou a condizer com o local. Ela, de cabelos soltos moldados pela sua própria natureza sem a ajuda de tratamento de cabeleireira, aparecia na forma mais simples e bela, para quem gosta de uma silhueta pura.

Os dois analisaram a foto e verificaram que estava perfeita. Continuaram a caminhada a passo um pouco acelerado. Heitor ficou triste de repente! Bolas! Podia ter ficado com uma foto igual à dela, pensou. Mas já era tarde para repor o descuido. Para iniciar um diálogo, disse:

- Está a ver? Daquele lado do rio é Espanha, mais propriamente a Galiza. Noutros tempos, por aqui, havia contrabando entre os dois países.

- Ai sim? Disse com ar de quem pensa que sempre houve livre trânsito de mercadorias entre os dois países.

- É verdade, e não há muito tempo. Foi até à abertura das fronteiras. E mais! Foi também atravessando o rio Minho que milhares de portugueses emigraram para França. Embora com a oposição do regime na altura, mas ainda bem que foram, porque o país ficou com muito mais vida. Nasceram casas novas pelas aldeias e cidades do país. O câmbio do franco para o escudo, convidava a que o máximo de dinheiro ganho por terras de França viesse direitinho para Portugal. A indústria vocacionada para essa área floresceu a um ritmo como nunca se tinha visto. Quem não emigrou, ficou com muito mais trabalho e tudo evoluiu de repente.

Sempre caminhando iam passando por outros transeuntes.

- Estes são espanhóis?

- Sim! É comum andarem por aqui, disse Heitor. Existe uma boa relação entre as pessoas dos dois países. Os espanhóis são grandes consumidores dos nossos restaurantes, adoram o bacalhau. Nesta iguaria, os portugueses são bastante criativos, talvez pelo facto de, quando não havia distribuição de peixe fresco como há hoje, fosse uma maneira de consumir peixe sem acusar o estado de saturação, tendo assim pratos variados. A este ritmo chegamos ao destino num instante! Até onde vai?

- Eu vou a pé até à Praia da Lenta, tenho lá amigos à espera.

- É um local lindíssimo. Estamos mesmo a chegar.

- Ainda não conheço, estamos hospedados no Hotel Valença do Minho. Ontem fomos informados da existência desta pista pedonal e desta praia fluvial, e só eu resolvi fazer este trajecto a pé.

- E pronto, chegamos.

- É verdade, foi um prazer. Quando termina a estadia por aqui?

- Amanhã vamos para Guimarães e vamos fazer como fizemos aqui, vamos andar por lá, à volta, a conhecer a zona até terminarem as férias.

- É uma boa táctica. Boa viagem.

Heitor seguiu a caminhada a falar com os seus botões e pensou! Nem sei como se chama na realidade, e aquela cara até não me é estranha, mas como faço tudo pela metade é no que dá.

Passado uma centena de metros, resolveu voltar para trás, afinal tinha uma boa caminhada para fazer até São Pedro da Torre. Um pouco desiludido consigo próprio, caminhava a uma cadência acelerada. Deixou de ver a paisagem. Na verdade no que pensava era onde poderia ter visto aquela pessoa que o marcou pela figura e simpatia. Caminhou até ao local onde a fotografou e parou. Destapou e calibrou a máquina fotográfica. Escolheu o ângulo semelhante ao que tinha usado. O rio estava lá. Majestoso e sereno como sempre, na foto captou o máximo da distância que pôde, no sentido do Mar. Analisou a fotografia e pensou: Falta aqui aquela linda figurinha. Vou guardar esta foto religiosamente. Se a encontrar, vou fazer uma montagem e vou pôr no lugar dela uma rosa vermelha, expedita como é, deve andar por aí nas redes sociais e eu arranjo maneira de lha mandar.

Ah! E se lhe fizer um poeminha a acompanhar? Hum, deixa cá ver! Vai ser assim:

“Vi uma rosa encarnada

Junto ao rio a passear

Não sei a sua morada

Nem que nome lhe chamar”.

...

Hermínio Mendes







2º Capitulo



Heitor depois de ter feito mentalmente o poema que acabaram de ler, ficou a magicar na sua inexperiência, ou talvez, inocência respeitosa ao não indagar do nome da bela senhora.
Após vários instantes de indecisão e reflexão, decidiu-se pelo óbvio e, talvez o mais fácil. Iria ao Hotel onde a senhora disse estar hospedada e faria com que o reencontro se mostrasse casual.
Se pensou, melhor se prontificou a executar esse pensamento. Tinha de voltar a ver a senhora, que o tinha deixado perturbado de modo positivo.
Diria até, que já sentia algo a nascer-lhe do fundo da alma. Poderia estar equivocado e o que sentia era simples fascínio, porém, a verdade é que sentia absoluta necessidade de voltar a ver a senhora, que teria uns 35 anos de idade, praticamente a mesma do Heitor, que acabara de fazer 36 precisamente no 15 do mês que corria, Setembro de quentes ventos, embora cronologicamente o Verão se aproximasse do fim, não parecia no entanto, que isso viesse acontecer brevemente, pois o tempo continuava bem seco e quente.
Heitor então, disposto a rever a senhora dos seus encantos, dirige-se ao Hotel onde estava hospedado, para se refrescar, tomando um banho e, até para se perfumar, pois tinha o sentimento que novo encontro dar-se-ia. Estava realmente muito esperançado, pois vira nos olhos da desconhecida um lampejo de interesse, poderia, quem sabe, ter-se dado uma provável empatia, que o Destino lhes tenha colocado.

Em vez de ir ao Hotel, onde certamente ela só regressaria à noite, pensou deslocar-se à praia, para onde ela havia dito ter amigos à sua espera, praia da Lenta, e foi para lá que ele se dirigiu, lentamente, era cedo, faltavam 10 minutos para as 16 horas. A distância a percorrer do seu hotel à praia era muito curta.

Heitor, enquanto deslizava pela estrada, ia pensando a maneira de a rever, de modo casual. Talvez, por sorte sua, ela estivesse no bar que havia nessa praia fluvial, por sinal, um local maravilhoso, bem arborizado e com uma infraestrutura muito funcional.

Com o coração em ritmo acelerado, chegou à praia, deixando o carro a uma distância considerável e caminhou pelo passadiço de madeira, que evitava as areias, onde muita gente deitada sobre toalhas se deleitava sob o sol daquela tarde.
Debaixo das muitas árvores, também muitos gozavam da frescura, apaziguando a canícula, que naquele dia, era especialmente exagerada.

Eis que surge o bar, de cadeiras vermelhas, com um telhado panorâmico, numa arquitetura que parecia desafiar o equilíbrio, debruçado sobre o rio. Era uma construção simpática.
Várias pessoas encontravam-se sentadas na esplanada e também no interior do bar, várias mesas estavam ocupadas.

Heitor olhou discretamente todas as mesas, ansiando encontrar a musa do seu poema.
Lamentavelmente na esplanada não a viu.
Entrou, olhando para todos os lados do amplo salão e, infelizmente também, a senhora não estava. Maldisse a sua sorte, mas não esmoreceu, iria esperar, certamente que ela, com os amigos viriam tomar algum refresco.

Heitor estava totalmente decidido a rever a sua dama e, até achava que se estava a passar da cabeça, pois nunca antes, havia sentido tanta emoção por uma mulher. Aquela, tinha-o efectivamente, deixado abalado, parecia que a conhecia há muito tempo e que se sentia apaixonado, o que seria inadmissível, dado que só a vira alguns minutos, embora intensos de conversa e olhares mútuos.

Procurá-la na praia, vestido como estava, seria ridículo e olhado por todos. Decidiu esperar. Já que tivera a sorte de a encontrar há poucas horas, talvez o Destino lhe reservasse nova surpresa.

Sentou-se numa mesa, na esplanada, situada num ponto de onde avistaria quem entrasse, pediu uma cerveja à jovem que servia às mesas e deixou-se levar pela imaginação romântica de um outro poema, e, ficou à espera dela. Viria de certeza, nem que tivesse de ir à noite ao Hotel Valença do Minho, onde ela disse estar hospedada. Entretanto foi escrevendo num guardanapo de papel...

Bela mulher de feliz aparição
que trazias luz no teu olhar
provocaste em mim tanta emoção
que preciso de te encontrar

Quando acabou de fazer esta simples quadra, Heitor olhou em frente e eis que, no grupo de 4 pessoas, que se aproximava do bar, vinha a mulher da sua inquietação...


José Carlos Moutinho




3º Capítulo

Heitor ficou petrificado! Ela! Era ela! Sentiu-se como um adolescente… as pernas tremiam e o coração pulava. Respirou fundo e recompôs-se.
O grupo de quatro mulheres que acabava de entrar na esplanada, chamava a atenção. Todas muito belas; de idades diferentes e diversas também no tipo de beleza, mas encantadoras. Heitor, levantou-se e via apenas aquela que o tinha enfeitiçado umas poucas horas atrás. A “feiticeira” olhava-o desafiante, porém com uma certa doçura.
- Ora, ora, quem venho aqui encontrar, o meu querido sobrinho!
Heitor, como que despertado de um sonho, olha e repara que no grupo estava, nada mais, nada menos, que a sua tia Inês! Mas que mundo pequeno!
 - Tia Inês, mas que surpresa! Aliás, dupla surpresa. Vê-la a si, que julgava em Caminha, e reencontrar alguém que conheci há poucas horas, por breves instantes, tão breves que sequer deu tempo para apresentações.
Heitor indicava a sua “feiticeira”, com um olhar enlevado.
Desta vez foi a Tia Inês que se surpreendeu. Bonita, a Tia Inês! Rondaria os sessenta anos, decidida, esbelta e de olhar penetrante. Deu um enorme abraço ao sobrinho e disparou:
- Pois então vamos lá às apresentações. Este é o meu sobrinho Heitor, disse dirigindo-se às amigas. E tu, meu maroto, vais ficar a conhecer a Maria, amiga e antiga colega de faculdade; a Filomena, minha indispensável colaboradora e, finalmente, a Cláudia, filha de uns amigos que estão de visita ao nosso verdejante Minho.
Heitor sentia-se um cata-vento, saltando o olhar entre aquelas quatro encantadoras figuras e inclinava a cabeça, em cumprimento. Fazia-o como um autómato, porque a sua atenção estava pregada à sua “feiticeira” que, sabia agora, se chamava Cláudia!
Sugeriu que se sentassem e procurou, discretamente, ficar ao lado de Cláudia. A Tia Inês olhava divertida para os dois e pediu que lhe contassem o fugaz encontro. Cláudia, sorridente e graciosa, tomou a iniciativa da narrativa, acompanhada das graças e gargalhadas do grupo. 
- Porque não vamos todos, amanhã, à feira de velharias, em Caminha? Heitor olhou a tia, que tinha feito a sugestão, e teve vontade de a beijar. Sentiu nela uma aliada…
- Excelente ideia Tia! O grupo concorda? Claro, responderam todas.
- A Cláudia gosta de feiras de velharias? Perguntou Heitor para iniciar conversa.
- Já fui a algumas e, francamente, fascinam-me. Deambulo por entre as barraquinhas e encanto-me por aquelas tão diversas peças, que imagino terem muitas histórias para contar. Devem ansiar que alguém as compre, para voltarem a ter o seu espaço. Deve ser angustiante estar naquela amálgama de “coisas” sem identidade. Cláudia falava com um olhar distante e alheado…
Fascinado, Heitor bebia cada palavra da sua “feiticeira” e aguardava com ansiedade o encontro na Feira de Velharias, dizendo para si:
Mistério tem no olhar
De feiticeira, tão bela,
É suave como o Luar
E brilha como uma Estrela

Maria Clara Lopes





 4º Capítulo

   Heitor, mal dormiu, a pensar no passeio a Caminha e no consequente reencontro com Cláudia. Poderiam, assim, recordar os tempos anteriores, em que conviveram e lhe deixou boas e encantes recordações, agora remanescidas, de feição mais intimista. E, o dia não amanhecia!
Tomado o pequeno almoço, a correr, dirigiu-se apressado para o local de encontro.
Após um tempo de espera, eis que surgem as suas companhias.
Cláudia apresentava-se formosa, de sorriso no rosto, vestindo um blusão e jeanes como jovem, mas elegante.
Depois dos cumprimentos e de um café numa esplanada, dirigiram-se para a feira de velharias. Mesmo, àquela hora estava já pejada de gente, uns por mera curiosidade, outros, procurando algum bem necessitado.
O mesmo fizeram, observando a azáfama de quem comprava ou vendia:
__ Ó freguês, veja esta lindeza e que bem ficará na sua sala de estar!
Prosseguiram, tudo observando e rememorando os utensílios vistos, ao tempo, em casa dos avós. Subitamente, Cláudia para e comenta, observando um velho ferro de engomar, aquecido com brasas e exclama:
__ Havia um igual em casa de minha avó e eu conservo ainda como decoração e saudade. Em criança, tantas vezes o utilizei, a brincar, com os avisos da avó:
__ Rapariga, ainda te queimas, tem cuidado.
O calor fazia-se já sentir e sendo horas de almoço, despediram-se, sem que Heitor, sob o olhar compreensivo da tia Inês, convidasse Cláudia para jantar no hotel, a que ela aquiesceu. Parecia não querer acreditar.
À hora estipulada, Heitor foi buscar Cláudia ao Hotel Valença do Minho.
Vinha linda, agora com vestido de brocado azul, um xaile de seda sobre os ombros, sapatos de meio salto e uma pochete na mão.
Heitor ficou deslumbrado com tanta beleza. Ofereceu-lhe o braço até ao automóvel e viajaram, primeiramente silenciosos, depois alegremente, recordando as memórias do tempo, ainda conservadas.
Chegados à Estalagem de Caminha, onde havia marcado mesa, estalagem que oferecia um requinte diferenciado, o empregado conduziu-os a uma mesa, junto à janela, de onde se avistava a paisagem em redor, agora iluminada, afastando-se, à espera que decidissem sobre a ementa e o vinho. Entre as indecisões das escolhas, foram conversando e as realidades pretéritas, avivaram-se, nitidamente.
Heitor rejubilava.
Entretanto, o empregado regressa, e serve um vinho verde alvarinho, que irá acompanhar o cabrito à moda de Sanfins, pedidos.
O jantar decorreu admiravelmente, criando-se um ambiente de certa intimidade, entre ambos.
Saboreavam a sobremesa, eis senão quando, se ouve uma exclamação de alegria!
__ Cláudia, tu por aqui? Era Eugénio, amigo de longa data.
Após se saudarem afectuosamente, Cláudia apresentou-o a Heitor, esclarecendo que eram colegas de trabalho e um amigo por quem tinha muita estima.
Ao se cumprimentarem, por muito que se esforçasse, o semblante de Heitor alterou-se profundamente.
Surpreendido e pensativo, Heitor sentiu o seu desejado horizonte enevoar-se e o seu espírito parecia dizer-lhe:
Os dias são-te confusos e solitários,
as nuvens te perturbam,
e uma sensação de imensidão
invade-te no vazio que te apavora.


José da Nave



5º Capitulo

O inesperado aparecimento de Eugénio, veio alterar o humor de Heitor, um estranho mau estar tomou posse dele. Também o semblante de Cláudia se alterou, o seu sereno rosto de tez branco pálido, de repente se ruborizou e o seu olhar mostrava-se, agora, distante do momento presente.
Acabado o jantar Heitor conduziu Cláudia para o terraço, de agradável ambiente intimista, pequenas mesas com confortáveis sofás, que convidava a uma noite descontraída.
Foi-lhes servido um gin tónico: era suposto este ajudar a dissipar a tensão acumulada.
A noite estava amena, uma daquelas noites de fim de verão que convida a vir para a rua.
Por perto encontravam-se outros casais, alguns namoravam trocando segredos, risinhos e atitudes próprias de quem se sente apaixonado.
Entre eles, apenas algumas palavras para cortar o constrangimento do súbito aparecimento de Eugénio, que veio estragar o encanto daquela noite contrariamente ao que Heitor tinha sonhado ser.
A noite acabou depois de Heitor deixar Cláudia a porta do hotel, onde continuava hospedada.
Já no seu quarto, Heitor pensava em tudo o que se estava a passar consigo. Sempre tinha vivido livre e despreocupado, um bom vivam entre amigos, copos e noitadas. Nunca se tinha deixado prender a mulher nenhuma. Para si, as mulheres resumiam-se a amigas e colegas ou a alguma conquista passageira sem consequência.
Sentia-se desconfortável e inseguro com este novo sentimento que condicionava a sua liberdade.
Afinal, quem era aquela mulher? Que segredos teria por detrás daquele olhar, que lhe parecia dar permissão e confiança a ir em frente, na sua intenção de a conhecer melhor?
Aquela mulher que lhe fez sentir pela primeira vez, desde que se encontraram, que era alguém predestinado, alguém que sempre conhecera e que agora finalmente reencontrara.
Era assim que Heitor se sentia, com o seu pensamento sempre ocupado por Cláudia. Esta não só o tinha impressionado, como lhe fazia sentir um novo sentimento. Seria amor?
E pensava...
Parte a minha liberdade...
Deixa-me assim cativo deste sentimento
Vivo uma nova realidade...
Que toma conta de mim a todo o momento!


Maria Gonçalves 




6º Capitulo


Era amor com certeza! Heitor já não era uma criança e por esse motivo sabia-o muito bem!
Davam as 12 badaladas e o Heitor dormia profundamente… E no sonho o desejo se fez presente!
Heitor batia na porta do número 53, do Hotel Valença do Minho, iria buscar a sua feiticeira Cláudia.
Não tinha conseguido esperar à porta do Hotel, subiu e bateu na porta com três toques suaves e trémulos.
Cláudia abriu a porta com admiração, sorriram, Cláudia teve vontade de soltar uma gargalhada, mas conteve-se. Na sua frente estava o amigo que conhecia ainda há muito pouco, de camisa amarela, calças vermelhas, um laço ao pescoço azul e escondido atrás de si, um ramo de margaridas brancas, era um quadro a emoldurar.
- Boa noite, posso entrar? Perguntou Heitor.
- Claro Heitor, desculpa, estou um pouco confusa, não contava contigo! Entra está à vontade!
Heitor oferece as margaridas a Cláudia e esta agarra-as e dirige-se à sala de visitas.
- São lindas, obrigada, vou-as colocar numa jarra e já volto, senta-te.
Cláudia cortou os pés às flores, ouvira-se o corte de tesoura e uma a uma as flores se foram arrumando na jarra.
Cláudia estava de camisa de dormir um pouco transparente, algo que aos olhos de Heitor, não lhe tinha passado em claro. E ela como também tinha notado nos olhos do amigo, sabia que teria de vestir um roupão.
- Vou subir ao quarto e regresso já. Disse-lhe Cláudia.
- És linda.
- São os teus olhos que o dizem!
- Gosto de olhar para ti, teu rosto cativa-me, as tuas mãos de fada, sinto-as, teus pés de Cinderela vejo-os a caminharem para mim, a tua boca vermelha com lábios carnudos em forma de coração, os teus olhos cor de mel e os teus lindos cabelos… Ah, o teu cheiro é penetrante.
Cláudia Sorriu e com um gesto de dedos na boca soprou um beijo.
- Deixas-me sem jeito rapaz!
- Anda cá. Chamou Heitor.
Cláudia desceu em direção a Heitor, ambos se abraçaram e se beijaram.
- Para, penso que estamos a ser rápidos em demasia. Cláudia não estava segura.
- Há algo errado em amarmos, eu gosto de ti. Existe alguém que possamos ferir?
- Existe tanta coisa Heitor! A vida é feita de altos e baixos, coisas boas e más e eu já vivi tanto que tenho receio de te magoar!
Abraçaram-se novamente e Heitor deixou escapar um beijo no ombro de Cláudia, depois uniram-se num beijo, num daqueles que parece ser a primeira vez.
Sentaram-se no sofá, e Heitor não parou, deixando deslizar a sua boca pelos ombros, beijando cada milímetro, até que os seios se colocaram no caminho!
Cláudia sentiu um arrepio, sentiu medo e uma sensação de recusa, mas ao mesmo instante de ansiedade, de gozo e prazer.
A nudez de Cláudia notava-se fora da camisa, o arrepio e o toque da boca húmida de Heitor, fê-la soltar um pequeno gemido, tímido mas verdadeiro.
Ambos ferviam num pulsar de gozo, movimentos tensos que levavam os corpos a um abandono total de toda existência em redor.
Rebolaram para o tapete do chão e aí levaram à loucura os cinco sentidos.
Heitor pediu que Cláudia se levantasse e esta obedeceu, olhou-a de cima a baixo, despindo-lhe a camisa, Heitor estava de boca aberta como que hipnotizado. Levou-a à parede, o frio da parede em contraste com o quente dos corpos, fazia com que ambos quisessem gozar o momento.
Heitor sentia-se o homem mais feliz do mundo.
Abriu os braços a Cláudia, fechou-lhe as pernas, ajoelhando-se de seguida. Olhava a sua musa, o seu corpo nu harmonioso, os seus seios macios e o seu monte de vénus capaz de o manter ali a adorá-lo.
- Fazes-me sentir vergonha. Disse Cláudia com as faces rosadas.
- Vergonha de quê? A vida é só esta e perder o que nos oferece o mundo, é perdermos o sentido da oportunidade divina! Tudo deve ser em amor. Tudo é sermos nós aqui e agora.
- És um ser humano interessante, posso vestir-me? Perguntou Cláudia.
- Gostava de te ter assim mais um pouco, assim abraçada a mim, queria sentir o palpitar do teu ventre. Pedia-lhe Heitor.
Cláudia aproxima-se de Heitor e este quando a abraça leva a sua mão entre as pernas da sua amada.

Surpresa!

A campainha da porta número 53 do Hotel Valença do Minho tocava novamente.
Cláudia solta uma risada!
- Estás à espera de alguém? Não será o teu amigo Eugénio? Heitor queria vestir-se e não encontrava a roupa!
Cláudia continuava a rir!
Até que, novamente a campainha toca, uma, duas, três vezes e…
Heitor acorda na sua cama, suado e aparvalhado desliga o despertador. Agora compreendera, tudo não passara de um sonho. Heitor riu e exclama bem alto:

Cláudia meu amor, assim o desejo
Perdi-me em ti como se fosse carnal
Acordei sem saber de ti, sem saber de um beijo
Sem saber quem é Eugénio, teu amigo real

José Alberto Sá 





7º Capítulo

Heitor acordou do seu sonho deveras perturbado e a transpirar. Como era possível ele sentir tais desejos e estar a apaixonar-se por uma pessoa que mal conhecia? Mas sabia também que ela o fascinava tremendamente, com o seu modo de andar bandoleando as ancas, com o seu olhar felino e o seu sotaque encantador. Tudo nela era sedutor e fazia com que ele sentisse tais desejos, não sabendo o que fazer para tornar a vê-la e quem sabe satisfazer os seus desejos carnais. Nunca tinha casado, mas namoriscou com uma mulher insipida e sem graça que mesmo assim o trocou pelo talhante do bairro e hoje era uma mulher gorda, brejeira mas com um ar feliz como nunca ninguém a tinha visto. Desde ai sempre teve mulheres só de ocasião, ficou marcado para toda a vida e nunca mais se tinha tornado a apaixonar, até agora lhe aparecer esta deusa de mulher para lhe transformar a vida. Se bem pensou melhor o fez. Telefonou à sua querida tia Inês, irmã de sua mãe que era uma solteirona sem filhos e que gostava dele como um filho e estava sempre a tentar arranjar-lhe casamento. Ele também gostava muito desta tia e como a conhecia bem, sabia que lhe iria arranjar um encontro, talvez um almoço e sendo assim veria os seus desejos satisfeitos, iria ver a sua apaixonada Cláudia. Quando Inês atendeu o telefone e percebeu que era o seu querido sobrinho, ficou encantada. Depois de ter ouvido o desejo de Heitor, Inês pôs um plano em marcha, visto ter percebido a atracão mútua entre os dois, pensando logo em armar-se em casamenteira. Como não tinha nada para fazer, seria uma bela maneira de passar o tempo. Disse logo: olha filho, estava a pensar marcarmos um almoço por aqui, levar a minha amiguinha Cláudia, e talvez desse para antes do almoço irmos dar um mergulhinho no mar e assim sendo, terias mais uma oportunidade de conhecê-la melhor. Heitor esfregou as mãos de contente e rejubilou parecendo um adolescente. A tia Inês era uma mulher maravilhosa que o conhecia perfeitamente e tinha percebido tudo. Cada vez gostava mais dela. Só pedia a Deus que não aparecesse, outra vez, o traste do amiguinho de Cláudia, o tal de Eugénio. Combinaram o dito almoço nesse mesmo dia, num restaurante que ficava perto da praia. Tomou banho, perfumou-se e não se esqueceu do fato de banho, da toalha e um creme para o sol, e aí foi ele feliz da vida ao encontro da sua amada. O tempo estava maravilhoso e Heitor enquanto esperava pelas damas, sentou-se na esplanada do restaurante, pediu uma bebida e começou a imaginar o encontro, esfregando as mãos de contente, pensando nos bons momentos que poderia passar junto da sua apaixonada. A sua imaginação fervilhava, já se via com ela atrás de uma rocha a percorrer o seu corpo esguio e belo e a consumar os desejos da sua fértil imaginação, até fazia amor com ela. Elas nunca mais chegavam e isso ia deixando-o ansioso. Passados uns belos minutos, ouviu atrás de si umas risadas, voltou-se imediatamente e ficou petrificado. Para seu espanto a sua tia Inês vinha à frente com cara de comprometida a abrir muito os olhos, como que a pedir-lhe calma e atrás dela vinha a bela Cláudia, acompanhada com o seu amigo Eugénio, de tal maneira entretidos que nem viam ninguém. Eram mimos atrás de mimos. Heitor sentiu uns suores frios e até ficou nauseado a pensar: que triste sorte a minha ter sempre este traste no meu caminho. Mas Deus escreve direito por linhas tortas. Pensou, tornou a pensar e falou para os seus botões: tens de sair da vida da Cláudia e já sei como resolver. Nem sabes o que te vai acontecer.
 E como que ligado à corrente, continuou divagando:
Tenho de acabar com a história
Desta amizade que me magoa
Vais guardar na tua memória
Que comigo não brincas à toa.

Magda Brazinha





8º Capítulo

Tentava recompor-se de tais mesquinhos pensamentos, porém cobertos de motivos e porque não, pensou tristonho, também de razão!

Ocorria-lhe agora a tremenda sorte do destino quando a florista lhe dissera não ter as tulipas que pretendia comprar para agradar a Cláudia.... Há mesmo momentos de sorte!

O trio rapidamente se acercou de Heitor, este ergueu-se e prontamente cumprimentou a sua querida tia, seguindo-se o malfadado Eugénio. Deixou propositadamente para último, a sua princesa, demorou-se uma fração de segundos junto à face de Cláudia, beijando-a ternamente. Desse gesto simples resultou uma lufada de energia interna ao jovem Heitor.

Bom... Disse a Tia Inês, parece que ao sábado não se está mal aqui fora! Parece-vos bem, o almoço ao ar livre? Perguntou, fixando um olhar divertido no sobrinho.

Claro que sim, minha tia, não sei se a Cláudia concorda...

Cláudia, agora atenta ao que a rodeava, retorquiu que lhe agradava imenso a ideia, aliás, tinha comentado com Eugénio essa vontade, à qual este assentira de imediato.

Socorrendo-se das boas maneiras que lhe eram intrínsecas exclamou;- Ahhh... O Eugénio faz-nos companhia, portanto?!

Ohh!!! Sim... por um acaso feliz! Os assuntos que me traziam para resolver com a Cláudia fizeram-me demorar um pouco e acabou por chegar a hora de almoço. O convite para acompanhar os amigos dela é sempre um prazer, respondeu alegremente, virando o rosto na direção da amiga.

"Se não os consegues vencer junta-te a eles" é um ditado antigo, mas verdadeiro, pensou contrafeito Heitor.

Então, por que esperamos? Com um gesto indicou as cadeiras ao redor da mesa que tinha já ocupado.

O almoço foi leve, saladas e sumos naturais, atendendo ao calor estival que se sentia e à combinação de uma passeata pela praia. A conversa foi igualmente leve, conduzida pela hábil e vivida tia Inês, versando sobre temas actuais.

À medida que o diálogo foi tomando ritmo, Heitor refreou a sua intenção de indagar sobre a familiaridade patente entre Eugénio e Cláudia, não só porque a amena conversa não se proporcionou como foi percebendo, entre a troca de olhares, o subtil interesse de Cláudia por qualquer opinião que expressava.

Esse pormenor não passou despercebido à intuitiva tia Inês! No seu íntimo sentia que aqueles dois tinham mais, muito mais para viver em conjunto, pelo que lhe agradava a ideia de poder contribuir de forma passiva para o prosseguimento do que considerava à priori um bonito romance.

Mas, conjeturar um plano para aproximar o sobrinho, da sua menina, precisava de passar por uma pré-avaliação do relacionamento amistoso que existia entre Cláudia e Eugénio. Essa teria que ser a sua primeiríssima tarefa!

Nesse sentido, resolveu abdicar do passeio pela orla da praia, desculpando-se por ter esquecido em casa do velhinho chapéu, alegando que a sua saúde não permitia a exposição solar sem proteção.

De braço dado com o sobrinho, percorreram até ao carro o curto percurso de pedra. Quebrando o silêncio e sem que Heitor entendesse o alcance da sua intenção, Inês conta como lhe parece bonita e interessante aquela rapariga, se bem que lhe encontra uma amargura indelével no olhar.

Heitor, não querendo deixar por mais tempo aquele seu suposto rival sozinho com a preciosa Cláudia, não prestou a atenção devida aos comentários tecidos pela tia.

Durante o caminho de acesso à praia, o telefone do Eugénio tocou. Abrandou o passo e atendeu, mas acabou por estacar, dando atenção redobrada a voz inconfundível do outro lado da linha. O assunto pedia a sua presença, pelo que o passeio com Cláudia tomava importância secundária! Afinal ela estava na companhia certa, parecia-lhe… Assim, desculpando-se pela súbita necessidade de se ausentar, apresentou as sinceras desculpas desejando um belíssimo resto de tarde a ambos.

Escusado será dizer que Heitor ficou radiante, assim de repente a providência divina lembrou-se dele! Por seu lado, Cláudia depois de indagar sobre a existência de algum problema serio, e em face da resposta de Eugénio, sentiu-se aliviada por poder desfrutar da amena tarde na companhia agradável de Heitor.

O casal dirigiu-se, finalmente, para a praia. Com o semblante visivelmente renovado, Heitor sentia-se inspirado, e não, não era a brisa ou o sol, ou mesmo a paisagem… apetecia-lhe trautear uma mosquinha…

A tia Inês já tinha lhe tinha contado, por alto, como conhecera os pais de Cláudia e toda a parte da infância desta de que tinha conhecimento pelas conversas tidas em salutar convívio familiar de vários anos, por isso, Heitor tinha agora meio de iniciar um dialogo, conduzindo-o habilmente para o passado recente, a fim de obter informação sobre a existência de Eugénio na vida da sua princesa.

Baixou-se e apanhou um pequenino galho e com ele desenhou no ar um “C”, Cláudia esboçou um sorriso traquina e propôs sentarem-se na sombra da copa da árvore seguinte. Assentindo, Heitor estendeu a mão e ajudou-a a sentar-se.

Heitor iniciou a conversa… Já sei que vieste muitas vezes durante a juventude a esta zona com os teus pais, foi aliás num desses verões que conheceram a minha tia… e depois estiveste alguns anos sem voltar aqui…

Sim, respondeu Cláudia, é verdade, tínhamos familiares por perto e acompanhava os meus pais, vim com eles até entrar na faculdade e o tempo se tornar pouco para conciliar passeio e estudo, mas também… não terminou a frase e o tom de voz baixou, o seu rosto empalideceu repentinamente.

Heitor ficou sem saber o que dizer. Após uns segundos de pausa constrangedora, resolveu oferecer a sua mão a Cláudia, então minha amiga, que se passou? Posso ajudar?

Recebendo o conforto que o gesto de Heitor lhe concedia, Cláudia murmurou, ninguém pode. Depois, olhando directamente Heitor, retorquiu: só eu posso resolver, ainda estou num processo lento de cicatrização interior, sabes…

O desconforto provocado pela confissão de Cláudia deixou Heitor bastante mais apreensivo do que curioso. Afinal, que segredo teria a sua princesa para lhe contar!?

Sem entender muito bem o porquê desta sua atitude, Cláudia resolveu desabafar com aquele homem que lhe parecia tão próximo, que tanto a cativava. Não sabia explicar a si mesma, mas o seu amago teimava em achar que podia confiar, que devia… Retomou a conversa, sabes… eu passei por uma experiência de vida muito acutilante… a pessoa com quem partilhava a vida, com quem tinha alinhavado um projecto bonito, tantos planos para um futuro risonho, desapareceu subitamente… uniu as palmas da mão e encostou-as a face, cerrou os olhos já lacrimejantes. O Eugénio tem sido incansável, um cunhado, um amigo… susteve a voz por momentos, para voltar a prosseguir…

Valha-me Deus, pensou Heitor, era tudo o que menos esperava ouvir!


Rute Pio Lopes


 


9º Capítulo

Diante da confissão de Cláudia e ao saber que não era nada do que imaginava em relação a Eugénio. Heitor ficou perplexo e sem palavras. Submeteu-se ao silêncio, olhou Cláudia, queria muito saber o que se passava, mas sentiu que não tinha que lhe perguntar nada, teria que ser ela a falar quando sentisse inteira confiança nele para que a pudesse ajudar a cicatrizar a sua ferida, viu que as lágrimas lhe corriam no rosto, ficou sem jeito e sem saber o que fazer, simplesmente ficaram ali em silêncio, ela na sua dor escondida, ele confuso e sem saber o que se passava no seu íntimo.

Ao mesmo tempo sentiu-se confortável ao saber que pelo menos Eugénio, nada tinha a ver com Cláudia a não ser um assunto familiar. E ao ser ele a estar ali ao seu lado a merecer a sua confiança, já era o começo de algo positivo a seu favor.

Sem palavras Heitor tentou tocar-lhe a mão Cláudia de todo não se importou, ficaram ali um tempo em silêncio e de mão dada, entretanto ela olhou-o como quem diz, ‘não fales, não digas nada’ ele sentiu o olhar dela no dele e tremeu sentiu um arrepio, não sabia o que fazer, apetecia-lhe tomá-la nos braços beijá-la e dizer-lhe, ‘estou aqui para ti, fica comigo’ mas Heitor também não sabia a gravidade da experiência que ela tinha vivido no passado (uma vez que ela confessou que era algo acutilante deveria ser então um duro golpe que ela sofreu) então Heitor achou que poderia ser demasiado cedo para ela qualquer aproximação. Cláudia lentamente tirou a mão dela da dele levou as mãos ao rosto e limpou as lágrimas, cerrou os lábios e esboçou um sorriso. Heitor estava rendido à sua beleza. Entretanto já entardecia, saíram debaixo da árvore e resolveram caminhar na areia da praia.

Caminharam lado a lado, a maré estava a vazar de repente Cláudia correu em direção ao mar, Heitor não tirava os olhos dela e para seu espanto o que vê ela tirou a roupa e mergulhou, Heitor não queria acreditar no que via, fechou os olhos e quando os abriu, ela estava a acenar-lhe para ele entrar na água, não sabia o que fazer, afinal tinham saído de uma situação de conversa que o deixou um pouco constrangido, tinha medo de se aproximar dela não se conter e fazer algo movido pelo seu desejo.

Heitor entrou na água mergulhou e quando sai fora d’água estava bem próximo dela, ela sorriu, ele sorriu também, ela aproximou-se dele e deu-lhe um beijo na face, ele sentiu que algo podia estar muito próximo a acontecer.

Estava um fim de tarde convidativo, o sol já se refletia na água para os presentear com um magnífico pôr-do-sol.

Heitor tomou coragem e disse-lhe, Cláudia; sei que diante da nossa conversa anterior que devo respeitar-te, mas espero que me compreendas ao fazer-te esta pergunta!

- Cláudia surpreendida disse-lhe, como assim o que queres saber, tens também algum problema em que eu te possa ajudar?

Sim tenho, tenho e preciso de o resolver agora, já não aguento mais esta incerteza, esta inquietude e sei que só tu me podes ajudar.

Ela franziu o sobrolho e disse-lhe! Como assim! Euuuu?

Aí Heitor disse-lhe, Cláudia responde-me por favor e ao responderes, olha-me bem nos olhos e diz-me... Sentes alguma coisa por mim?

- Ela corou e baixou os olhos, ele pegou-lhe no rosto e disse-lhe, olha pra mim por favor não me fujas à resposta, fala-me, quero ouvir da tua boca nem se seja um não. Então Cláudia pediu-lhe desculpa e disse-lhe... Dá-me um tempo para te responder.

Heitor entristeceu, mas para seu contentamento ouve ela dizer-lhe.

- Vá lá amigo não fiques triste o mundo não acaba aqui, vamos tirar uma foto juntos, afinal foi à beira d’água e por causa de uma foto que a gente se conheceu... Lembras-te como foi lá no rio Minho?

- Claro que me lembro, como podia esquecer!

Olharam-se atraídos um pelo outro e concluíram que havia uma grande cumplicidade entre eles, sorriram e tiraram a selfie com o mar e o pôr-do-sol de fundo.

De tão feliz que estava Heitor sentia-se como um adolescente ao pensar que a sua musa estava ali tão próxima dele. Sentia-lhe a respiração. Estavam ali abraçados um no outro, ‘isto para caberem na foto’ Quando deram por isso o tempo da foto já tinha passado, ele virou o rosto para o dela e de rompante os seus lábios quase se tocaram, ficaram ali uns segundos, Cláudia olhou bem dentro dos olhos dele e pediu-lhe. ‘Heitor, não desistas de mim’ e diante daquele pôr-do-sol fascinante, ele não resistiu abraçou-a e beijou-a nos lábios.

Quando se largaram ficaram os dois em silêncio, Heitor atrapalhado pediu-lhe desculpa.

Cláudia tapou-lhe os lábios com os dedos e disse-lhe ‘não peças ambos contribuímos para que isto acontecesse’ foi bom, vamos se vendo por aí e vamos deixando que o carinho que nutro por ti me acalente de novo a alma e o coração, deixa que volte a acreditar e a amar de novo, tem paciência comigo, espera que o meu amor acenda a chama e enalteça de novo, peço-te por favor Heitor. Sê o meu abrigo e o meu amigo especial, fica ao meu lado, preciso de ti como do ar que respiro.

Heitor pegou-lhe na mão e disse-lhe...

Neste momento, não preciso ouvir mais nada.

Mas tenho de dizer-te, apaixonei-me por ti, estou na tua mão.

Esperarei por ti o tempo que for preciso e espero que um dia, seja meu o teu coração.

Florinda Dias




10º Capitulo

Depois daquela troca de um beijo, Heitor e Cláudia não deixavam de pensar um no outro e no momento que ambos desejavam e tinha acontecido poucos dias antes. Falavam ao telemóvel regularmente, trocando confidências do dia a dia de cada um.
 

do desejo de ambos de se voltarem a reencontrar, não queriam precipitar as coisas e Heitor respeitava o pedido de Cláudia. Mas cada vez que ouvia aquela voz doce e sedutora, Heitor sentia o corpo fervilhar de vontade de tomar a sua deusa nos braços, cobrindo-a de beijos. Ainda sentia nos lábios o seu sabor a mel.
 

Era sábado de manhã e Heitor, espreguiçou sem vontade de levantar da cama. Tinha sido uma semana de trabalho árduo, mas sabia que tinha de o fazer, pois precisava de ir com o carro à oficina. Durante a semana notou que algo não estava bem. Saído da cama, tomou banho, vestiu-se menos informal que o costume e saiu, dirigindo-se ao Café do costume para tomar o seu habitual café da manhã. Uma vista de olhos pelo jornal, tempo de ler apenas os títulos das notícias e pouco mais, e saiu.
 

Andou cerca de cinco quilómetros até à oficina do Sr. Joaquim, o mecânico habitual e muito conceituado naquela zona. Entrou na mesma e dirigiu-se a um carro que estava estacionado lá dentro, um Mercedes preto. Havia alguém dentro deste e pensou ser quem procurava. De repente a porta da frente abriu-se e Heitor fica espantado, vendo que era Eugénio que saía lá de dentro.
 

Eugénio, também sem esperar ver aquele homem alto, bem falante e que já tinha reparado ser dono do coração de Cláudia, exclamou!
 

- Bom dia, Heitor. Por aqui?
 

- Bom dia, Eugénio. Sim, é a minha oficina.
 

Eugénio respondeu que o mecânico tinha saído para ir buscar uma lâmpada para o seu carro, também ele frequentador daquele espaço.
 

Regressado o Joaquim, cumprimentos feitos, o carro do Eugénio arranjado, Heitor deixou o seu para que a revisão fosse feita.
 

Eugénio, gentilmente, ofereceu-se para dar boleia a Heitor até onde ele quisesse e convidou-o para beberem uma cerveja, pois estava um dia de Outono bastante quente.
 

Os dois dirigiram-se a uma esplanada muito agradável a caminho de casa de Heitor, e foram aproveitando para se conhecerem melhor. Chegados à esplanada, sentaram-se e a dada altura Eugénio olhou fixamente para Heitor e disse:
 

- Amigo, desculpa por já assim te tratar, mas tenho reparado no pouco tempo que tivemos juntos e por aquilo que a Cláudia me fala de ti, que és um homem de bem.
 

- Sem problemas, respondeu Heitor, agora já não considerando o mesmo como ameaça, apesar de não saber ainda o que o unia à sua amada.
 

- Sabes, reparei que tu e a Cláudia estão cada vez mais próximos. Noto estás a fazê-la sentir algo de bom, de novo, e vontade de viver, coisa que não acontecia desde a morte estúpida do meu irmão, num violento acidente de viação.
 

Heitor que nada sabia, gelou com a notícia e percebeu o que realmente entristecia a Cláudia
 


- Não sabia e lamento, Eugénio, realmente a Cláudia até agora não me contou e também não me atrevi a perguntar.
 

Eugénio prosseguiu a conversa relatando o acidente, o que Cláudia sofreu e como ele mesmo tem feito para a ajudar, sendo seu amigo e cunhado, confidenciando mesmo que se sentia atraído por aquela linda mulher, mas que nada teria com ela, porque seria como uma traição ao irmão. Por isso, desejava a Heitor que fosse capaz de a fazer feliz, pois ela merecia, era uma boa e linda mulher e já tinha sofrido muito.
 

Terminado aquele momento, Eugénio deixou Heitor em casa. Durante o dia, este não parava de pensar em toda aquela história e só queria ajudar Cláudia e torna-la numa mulher feliz.
 

Eram cinco da tarde, não resistiu e ligou-lhe
 

- Boa tarde, Cláudia, como estás?
 

- Estou bem e tu?
 

- Também e com muita vontade de te convidar para jantar, mas estou sem carro.
 

Cláudia, num ápice e sem muito pensar, seguindo apenas o coração, respondeu!
 

- Não seja por isso, tive uma semana tão stressante que preciso relaxar. Nada como uma bebida e um bom jantar para renovar energias, Vou buscar-te por volta das 8.30. Parece-te bem?
 

- Sim, estarei pronto. Heitor nem queria acreditar
Cláudia com medo de se arrepender, não quis pensar em mais nada, senão em estar linda para o jantar. Abriu o roupeiro e optou por um vestido vermelho, um pouco acima do joelho, decote que deixava um pouco os seios à vista, mas nada demais, pensou! Está na altura de voltar a sentir-me mulher. Escolheu um body branco de renda que vestiu por baixo do vestido, uns sapatos de verniz de salto fino em preto, um colar lindo prateado, apanhou os cabelos longos num rabo de cavalo que lhe desnudava ainda maios os ombros e um pouco de batom vermelho, que sobressaia nos lábios carnudos. Olhou o espelho e sentiu-se bonita e atraente.
 

Heitor optou por umas calças pretas, camisa côr de rosa e uma camisola pelos ombros. Era noite e podia estar frio.
 

Oito e meia em ponto e Cláudia ligava-lhe a dizer que estava à sua porta. Heitor desceu, escolheram um restaurante perto da praia não muito longe dali e sentaram-se perto de uma janela, para poderem comtemplar o mar.
 

Escolhido um arroz de marisco para ambos, a acompanhar um vinho verde bem gelado, e a conversa fluía. Heitor sentia uma atração enorme por aquela mulher. Cláudia já não conseguia evitar o intenso olhar entre eles. Estava tudo perfeito. De vez em quando iam-se tocando de leve nas mãos, resultando um arrepio na pele. Findo o jantar, saíram e decidiram caminhar junto ao mar, desfrutando aquela noite mágica de lua cheia, incentivando o amor.
 

Sentaram-se perto de umas rochas. Heitor, sem resistir, pegou na mão de Cláudia, beijou-as, tocou delicadamente no seu decote, fazendo com a ponta dos dedos algumas caricias O corpo de ambos escaldava de paixão, as pernas desnudadas deixavam Heitor louco de vontade, sussurrando ao seu ouvido:
 

Cláudia, vai simplesmente até onde não fores capaz de resistir
Irei insistir daqui até à lua que nos serve de manto
Flor do meu encanto, deusa da minha vida
Renasce nos meus braços, no deleite desta noite…

Anabela Fernandes





11º Capítulo


Era madrugada de domingo, Heitor estava agitado, não conseguia adormecer.

Como a sua agitação era de felicidade, por certo iria dormir tranquilamente. Sentia-se preso ao dia anterior, no jantar a dois, na cumplicidade, na ida ao mar e no breve sussurro deixado à sua amada - “renasce nos meus braços, no deleite desta noite” - estava deveras apaixonado.

Tinha entranhado na sua memória os vários acontecimentos de há quase 3 meses, quando tudo começou, nos últimos dias de Setembro.

Recordava os veraneios naqueles locais minhotos pela beira do rio, naquela “combinação perfeita” entre o murmúrio das águas e o brilho do sol ali espelhado.

Sentia-se muito tranquilo por todas as dúvidas se terem dissipado em relação ao Eugénio.

Os dias outonais tinham-se instalado, mas o tempo estava quente. Anoitecia mais cedo e no céu via-se o luzir das estrelas. Parecia que o tempo tinha asas!

Estaria a sonhar? Serão sonhos, fantasias, ou realidades? Acreditava nas realidades, de estar a viver momentos de autêntico amor e poesia.

Já amanhecia, apetecia-lhe continuar a sonhar e amar, amar muito, sem fronteiras! Queria ficar mais um pouquinho junto da sua almofada, como se fosse sua confidente, como se estivesse ali ao seu lado, no seu leito, a Cláudia.

Passado aquele turbilhão de ideias, lembrou-se que não tinha ficado nada combinado para este dia de domingo, se iriam dar uma voltinha ou não. Ia ligar-lhe quando o telemóvel tocou. – A sua amada estava do outro lado da linha - sugeria uma volta até ao Porto, para conhecer o parque da cidade. – Concordas em ir-te buscar Heitor? – Bora lá… disse ele.

De repente, tomou o seu banho, vestiu-se… e, não demorou muito, apareceu Cláudia…!

Trazia o seu cabelo preso numa só trança virada para a esquerda, o seu rosto airoso, macio, sem pintura e os lábios na sua cor natural. Apresentou-se vestida com fato de treino azul, de sapatilhas brancas com listas coloridas. No banco de trás descansava a sua mochila. Heitor também estava de fato de treino, sapatilhas e mochila. Cláudia saiu do automóvel, deu-lhe um abraço muito apertadinho e um simples beijo. Seguidamente, pediu a Heitor para conduzir. – Confias em mim (?) perguntou ele. Ela sorriu e nem respondeu.

Sendo assim, Heitor tomou o lugar do condutor, deviam aproveitar bem cada minuto, porque o dia seguinte seria de trabalho. Com toda a precaução foi iniciada a viagem até à Cidade do Porto. Conversavam como se conhecessem já há muito tempo. Falaram da feliz coincidência com a tia Inês, entre outras coisas. Cláudia ligou o rádio, estava a passar música romântica.

O tempo estava magnífico, a paisagem linda, cada árvore pintada com as cores de outono dava muito prazer observar. A sua amada, muito “malandreca”… bem sabia que podia desfrutar melhor da paisagem indo o Heitor ao volante e, resolveu dizer-lhe; como resposta obteve - deixa que eu depois acerto contas contigo...! Mais uma vez deu-lhes para rir.

Entraram no Porto e, por volta das onze horas estavam no parque. Só viam gente feliz pelas alamedas. Estavam deliciados com tudo que viam. A vegetação tão bonita, tão frondosa, muito colorida, plátanos acolhedores, alguns pinheiros mansos, muitas tílias gigantes e muito mais vegetação. Um pequeno eucaliptal, galhos caídos e carapuças espalhadas no chão que pareciam campânulas. Sentiam no ar esse cheiro balsâmico que penetrava nas narinas e fazia respirar a plenos pulmões! Um bálsamo para os seus corações apaixonados!

Heitor deu uns passos atrás, foi cortar um raminho de flores de tília, deu à Cláudia e o instinto dela foi dar uma corrida no sentido dos galhos caídos com as campânulas, para dar ao Heitor! O riso de cada deixou um eco no ar! Curvaram-se a rir, daquela atitude tão instantânea.

Caminhavam junto a pequenos lagos de nenúfares! Extensos relvados com várias toalhas estendidas para piqueniques. Crianças a brincar junto dos seus pais e também dos seus animais de estimação. Sucediam-se curvas e mais curvas e mais relvados, com gansos, pequenas garças e patos voadores (com as suas penas multicores muito brilhantes como estrelas) que em grupo, rasavam agradavelmente as cabeças de quem passava.

Balbuciavam - apesar de ter tanta gente andar por aqui a caminhar, a correr, a saltar, ou a andar de bicicleta, o parque permanece muito limpo.

Ah! Que cena deliciosa! Um pequeno lago e apenas um casal de cisnes brancos de bicos unidos, formando um coração. Que delírio!

Uma linda ponte em pedra, a unir a outra margem do maior lago, local convidativo a fotografar toda a envolvência, nada ficou esquecido. Cabeças encostadas, beijinhos de todos os feitios, que bem se sentiam. Queriam guardar para a posteridade aquelas recordações tão boas.

Entretanto… esqueceram-se de almoçar eram quase horas de lanche! Segredou-lhe Heitor ao ouvido – o amor é o melhor alimento – e, entreolharam-se sorridentes.

Tomaremos qualquer coisa simples naquele Bar Azul. Entraram, compraram um saquinho de rebuçados com sabores a morango, mirtilo e ananás para se lambuzarem, pediram duas sandes mistas e duas meias de leite.

Faltavam uns escassos 300 metros para conseguirem ver o mar, por onde havia uma saída, iam até lá espreitar depois dar a volta e regressar novamente pela aprazível natureza.

A cidade em si, ficaria para outra ocasião.

À saída, lembraram-se de dar um nome sugestivo ao parque - vamos chamar-lhe - Parque das Delícias - o nome assenta-lhe bem. De seguida regressaremos ao querido e magnífico Minho.

Já no carro, Heitor ligou o rádio e desembrulhou dois rebuçados, de dois sabores, um para ela outro para si e ficaram ali mais um pouco de cabeça encostada, em silêncio. Deram mais uns beijinhos e trocaram aqueles sabores a mirtilo, a morango, ao som da música. Um tango!

Foi à mochila buscar um caderninho de linhas, de criança, que surpreendeu Cláudia.

Tão infantil… pois, a poesia já andava em si entranhada há muito tempo. Num ombro a ombro e no bater do coração, Heitor sugeriu fazerem ali, escrito à mão, um poema partilhado. – Concordas minha princesa? – Claro que sim, a partir de hoje partilharemos tudo. A nossa vida, o nosso amor, as nossas tristezas e alegrias, tudo, tudo, tudo! E então quem começa? – Podes ser tu princesinha, em cada verso trocamos e depois termino eu.

Nem mais um eco. Nem um sussurro se ouvia. Estavam apenas a escrever.

Sentiam-se puras crianças apaixonadas.
.
- Quero adormecer à luz das estrelas.
- Ao amanhecer eu abro as janelas.
- Recebi de ti um ramo de flores.
- Eu troquei contigo beijos e sabores.
- Estou tão feliz de amar deste jeito.
- E eu a sentir o teu coração vibrar no meu peito. 


Aida Sampaio






12º CAPÍTULO


O tempo passava e o par de namorados não queria que passasse. Reflectiam no olhar a felicidade que os embebia. De repente Heitor levou a mão à ignição. A tarde caia e as luzes começavam a acender-se emprestando à paisagem o lusco-fusco que lhes absorvia a atenção. Urgia dar início ao regresso. Fazendo o percurso pela nacional atravessariam Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo e Vila Praia de Âncora até chegarem de novo a Valença do Minho. Preferiam assim e sempre que pudessem seguiriam pela marginal para saborearem não só a paisagem mas também o odor marinho carregado de iodo que lhes refrescaria as narinas completando o bem-estar que os envolvia. As horas galgavam e o estômago mal confortado lamentava-se. Pararam na Póvoa, à beira-mar, para fazerem uma refeição completa. Escolheram um local com vista para a praia, mas como a noite estava fresca e ventosa e eles não tinham agasalhos optaram por um restaurante plantado na areia. Após o jantar a languidez apoderou-se deles. Não queriam que o dia terminasse mas a vida obrigava-os a serem sensatos. De volta ao carro Cláudia tomou o volante. Não que tivessem exagerado na bebida mas Heitor não perdera a oportunidade de triplicar o champanhe no brinde que os unia na cumplicidade de um futuro promissor. Pelo caminho os olhos de Heitor iam percorrendo as fachadas e lendo em voz alta os anúncios mais chamativos. De repente diz:
- Pára, Pára! O casino da Póvoa chama-nos!
Cláudia pôs o pé no travão e o carro estancou bruscamente.
- Que se passa Heitor? – perguntou ela sobressaltada.
- Meu amor, eu não sou um jogador nem veterano nem aficionado, mas como amador gosto de vez em quando soltar as energias. Anda! Vem daí! Vamos espairecer um pouco! – dizia Heitor já com a porta aberta e o corpo fora do carro. Cláudia arrumou o carro sem tempo para pensar que estavam em fato de passeio. Mas como não tinham compromissos para o dia seguinte não lhes fazia diferença que a noite se prolongasse da forma que lhes desse mais prazer. No entanto Heitor percebeu nela um lapso de preocupação e esclareceu:
- Não te preocupes! Amanhã não vou trabalhar, vou pedir uns dias de licença para desfrutar contigo esta etapa das nossas vidas.
Cláudia riu com gosto e atirou-se-lhe ao pescoço num gesto de agrado feliz. O tempo que passaram no casino dissipou-se num ápice e sem relevância. Era a primeira vez que Cláudia entrava numa casa de jogo, por isso ele preferiu ficar com ela a observar e a saborear umas bebidas, enquanto a madrugada avançava apadrinhando com nuances de bem-estar para quem iniciava assim o seu romance de uma forma tão tranquila. Mas a sala começou a esvaziar e a dar a entender que o tempo passa sorrateiro. Com um sorriso nos lábios perceberam que o sol já clareava o horizonte. Voltaram ao carro rindo às gargalhadas de tudo e de nada em que tropeçavam. Saíram lentamente da cidade. Nem um nem outro tinham vontade de voltar para casa. Cláudia guinou a direcção do carro no sentido da praia e foi parar sobre a areia. Como duas crianças descalçaram os ténis, arregaçaram as calças e correram de mãos dadas para a água. Àquela hora eles nem sentiram que a água estava gelada e nem perceberam que a praia estava deserta, propícia aos beijos e aos abraços que os amantes não conseguem abafar. Só o vento e o nevoeiro que se levantou fez com que percebessem que estavam regelados e longe de terminarem a jornada. Retomaram o caminho fascinados. Em Esposende o farol chamou-os de novo à realidade. O nevoeiro estendia-se como um véu que escondia a beleza daquele pedaço de mar. Desta vez foi Cláudia quem reagiu a um letreiro e travou ao mesmo tempo que lia e constatava:
- Hotel “Suave Mar”! E se ficássemos aqui uns dias? Este hotel é o mais emblemático desta terra! – Heitor abanou a cabeça e sorriu esclarecendo:
- Sem bagagem e assim vestidos?! Não nos deixavam passar da porta de entrada! Parecemos tudo menos dois pombinhos em lua-de-mel!
- Tens razão! Mas este local é tão bonito!
- Queres dizer que gostavas de passar aqui uns dias comigo?
- Claro que sim! Não falaste em lua-de-mel? Para quê ir para mais longe?
- Então com isso também queres dizer que te queres casar comigo?
- Claro que quero! Ainda tens dúvidas?
- E se nos casássemos hoje mesmo? – a ansiedade do homem era visível no seu semblante.
- Hoje? Assim? Não, hoje não! Amanhã! Se não temos tempo de comprar as roupas de noivos formais pelo menos tomamos banho e mudamos esta por outra mais decente e conveniente para o acto.
- Tudo bem minha rainha! Então onde e como é que queres que seja esse momento?
Cláudia arrancou de novo com um sorriso matreiro e foi dizendo:
- Bem, eu sempre sonhei com um local lindo para esse dia. Conheces Viana do Castelo, não conheces? O templo de Santa Luzia no monte do mesmo nome tem sido palco de inúmeros casamentos. É um ponto fantástico e místico, ideal para um momento tão belo como este.
- Santa Luzia?! Sim é lindo! Já lá fui várias vezes mas nunca pensei que viesse a casar lá! O monte, o mar e o céu numa envolvência sublime… e se estiver sol, as fotografias serão um espectáculo. Pára! Encosta o carro e pára que este momento tem de ser selado com um beijo.
Ela abrandou e encostou. E de mãos dadas e olhos nos olhos o momento foi selado, lacrado!
Meio-dia em ponto do dia dez de Dezembro, apenas três meses após se terem conhecido e já os dois estavam de mãos dadas no primeiro degrau da escadaria do templo, prontos para assumirem um compromisso definitivo. Assim mesmo e sem indícios de qualquer hesitação os seus destinos estavam prestes a unir-se.
- Cláudia, queres mesmo ficar comigo para o resto da tua vida?
-Sim Heitor, quero!
Logo que as portas do Santuário se abriram os dois disseram os sins sem qualquer demora ou hesitação.
- Para sempre! – dizia Heitor para a sua amada com um brilhozinho no olhar.
- Para sempre! A partir de hoje ninguém, nem qualquer outro fantasma nos separará!
Para desfrutar da cidade andaram a pé pelas ruas e de barco pelo rio Lima e reuniram inúmeras recordações que guardariam religiosamente. Ao fim do dia quando regressavam a Valença….
O tempo passou e ao fim de duas semanas Cláudia abriu os olhos. Estava sozinha e não reconhecia o espaço onde se encontrava. Voltou a fechá-los e balbuciou algumas palavras muito fracas. Não tinha forças para falar nem para se mexer. Tentou sentar-se e não conseguiu. Era notório que precisava de ajuda. Sentia-se enervada e enjoada. Um vómito repentino desmoronou-a ainda mais. Como não tinha ao pé quem a ajudasse na aflição invocou a Srª da Agonia. Abriu de novo os olhos e assustou-se. Estava num hospital? Como e porquê? E Heitor? Onde estava ele? Gritou com todas as forças que reuniu e foi ouvida. A porta da enfermaria abriu-se e uma equipa médica surgiu apressada em seu auxílio. Nos olhos de Cláudia estampava-se a interrogação.
- Calma! Respire fundo e mantenha a calma! Não se enerve que nós estamos aqui para a ajudar. O seu estado exige a sua e a nossa atenção.
- O meu estado? – balbuciou ela muito baixo – Qual é o meu estado? O que é que me aconteceu?
- A Senhora teve um acidente muito grave e foi-lhe induzido um coma para a manter tranquila. Deve sentir-se muito fraca. Os últimos exames exigem repouso absoluto.
- Um acidente? O que é que os exames dizem em concreto? Tenho alguma coisa partida?
- Não! Felizmente não tem nada partido! O coma foi mesmo por precaução devido ao aparato do acidente. Mas agora o seu prognóstico alterou-se. As análises mais recentes revelam uma segunda e inesperada situação que a vai prender à cama durante mais algum tempo. – Cláudia abriu muito os olhos. Não estava a entender nada do que o médico lhe queria dizer. Pediu que chamassem o marido para que lhe explicasse tudo, mas a resposta que lhe deram foi que Heitor….

Zita de Fátima Nogueira 




13º Capitulo 


Era terça feira, 11 de dezembro, batiam as 6 horas da manhã na torre da Igreja de Santa Maria dos Anjos, o telemóvel tocou, tocou durante algum tempo e Eugénio acordou sobressaltado.
Quem seria àquela hora?
O despertador estava programado para o acordar só às 7. Esticou o braço, ligou a luz do candeeiro da mesa de cabeceira, esfregou os olhos e como o telemóvel não se calava, resolveu atender.
- Estou sim… quem fala?
- Estou a falar com o Eugénio Santos?
- Sim é o próprio, quem fala, por favor?
- Desculpe incomodar tão cedo, mas sou a Irene a mãe da sua cunhada Cláudia. Diga-me por favor, já teve algumas notícias dela?
Ele não tinha aquele número de telefone identificado, não tinha reconhecido a voz e ainda meio ensonado, respondeu:
- Não!… Já há alguns dias que não falo com ela, mas porquê? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu sim Eugénio… oh valha-me Deus! No domingo de manhã foi passear ao Porto com aquele amigo dela, o Heitor, e ontem à noite quando regressavam a casa, perto de Vila Praia de Ancora tiveram um acidente muito grave, o carrinho dela ficou todo espatifado, ela está em coma no Hospital de Santa Luzia em Viana do Castelo… e o Heitor, esse coitado, faleceu. Foi a GNR de Vila Praia de Ancora que me ligou há pouco a dar a notícia, estou aqui cheia de nervos sem saber o que fazer, para me deslocar ao hospital e para ver como ela está. Nem sei se a família do Heitor já sabe de alguma coisa, ou não.
- Oh dona Irene se quiser esperar um pouco por mim, daqui a alguns minutos passo aí por sua casa e levo-a ao hospital, assim fico também inteirado do estado dela, coitada.
- Oh Eugénio pode fazer-me esse grande favor? Não é muito incómodo para si? E o seu emprego?
- Não se preocupe comigo, o importante é sabermos do estado dela, deixe que do meu emprego eu trato com o patrão. Até já, está bem?
- Está bem, então espero aqui, até já e tenha cuidado consigo!
 

Ele ainda meio atordoado, nem queria acreditar no que acabara de ouvir. Como era possível? Aquela mulher estava mesmo enguiçada. Primeiro foi a morte do marido, o seu irmão, e agora foi-se-lhe o “novo namorado”. Tomou um banho ligeiro, nem sequer cortou a barba, vestiu-se num ápice, saiu e fechou a porta de casa, entrou no seu Peugeot 206 que estava estacionado mesmo em frente e fez-se ao caminho. Passados 10 minutos já estava a chegar a casa da senhora Irene, que muito nervosa, já o esperava à porta. Cumprimentaram-se, ela entrou no automóvel e lá seguiram rumo ao hospital.
Eugénio questionou-a sobre mais alguns pormenores que soubesse, mas ela pouco mais lhe soube dizer. As informações dadas pela GNR tinham sido muito escassas e só depois de chegarem ao hospital é que poderiam ficar melhor esclarecidos.
 

Chegados ao hospital dirigiram-se às urgências e a dona Irene perguntou pela filha, qual o seu estado e se a podia ver. A funcionária do gabinete de atendimento perguntou-lhe o nome da filha e quando é que tinha dado entrada:
- O nome dela é Cláudia Maria Antunes Martins. A GNR telefonou-me a dizer que ela teve um acidente esta noite e que deu aqui entrada pelas duas horas da madrugada.
A funcionária exclamou:
- Ah sim aquele acidente!...eu estava aqui de serviço. Por favor espere aqui um bocadinho que eu vou falar com o médico de serviço que a atendeu, parece-me que ele ainda cá está, para ver se ele pode vir aqui falar consigo e esclarecê-la do estado da sua filha.
A Irene levantou as mãos ao céu e exclamou:
- Oh meu Deus ajuda-a e faz com que não seja nada de grave!
 

Passaram alguns minutos que para aquela mãe aflita e para o Eugénio mais pareceram séculos, e eis que a funcionária se abeira deles e lhes diz: - Aguardem um pouco ali na sala de espera que o Dr. Anton Sanches está a terminar o atendimento a um doente e já vem ao vosso encontro.
- Obrigada menina Juliana, muito obrigado, Deus lhe pague!...exclamou a trémula e preocupadíssima Irene.
 

O Eugénio, não menos preocupado, mas um pouco mais calmo, tinha-se mantido em silêncio junto àquela mãe tão aflita, procurou que se acalmasse um pouco, ou ainda lhe daria para ali alguma coisa também e depois ainda seria pior para ambos.
 

Passados mais alguns minutos chegou o Dr. Anton e com voz suave perguntou pela mãe da utente Cláudia Martins. A Irene deu um salto na cadeira onde há pouco se sentara, para descansar um pouco as pernas e exclamou:
- Sou eu, senhor doutor! Como está a minha filha, senhor doutor?
Eugénio levantou-se também, juntou-se-lhes procurando ampará-la e apresentou-se.
O médico encaminhou-os para o seu gabinete e colocou-os ao corrente, tanto da situação de Cláudia como do falecido Heitor.
Cláudia tinha dado entrada no hospital em estado inconsciente, aparentemente não tinha nada fraturado e enquanto não tivessem todos os resultados dos testes preliminares de diagnóstico, por precaução, tinham-na colocado em coma induzido, e enquanto estiver nesse estado, a sua filha não poderá ter visitas. Assim que tivermos um diagnóstico seguro do seu estado, entramos em contacto com a senhora.
Quanto ao companheiro de acidente, este tinha dado entrado no hospital já cadáver, com várias fraturas, sendo a mais grave um traumatismo crânio-encefálico com fratura exposta, e que lhe terá causado a morte.
 

Irene ficou branca e tremia que nem caniços em dia de vendaval.
Eugénio até se arrepiou todo, com a descrição do estado em que Heitor ficara, mas ficou mais tranquilo quanto ao estado de Cláudia, tentou que Irene se acalmasse e acreditasse no médico, e nos esforços que estavam a desenvolver para o seu bem-estar possível.
 

Esclarecidos tanto quanto era possível, despediram-se do médico, agradeceram e apelaram a todos os seus bons serviços e da sua equipa, para que Cláudia pudesse recuperar tão breve quanto possível. Irene dirigiu-se ainda ao balcão de atendimento, e agradeceu também a Juliana pela atenção prestada, pediu-lhe o número de telefone para onde pudesse ligar, procurando saber do estado da sua filha. Procurou ainda saber se a família de Heitor já havia sido informada do ocorrido, ao que Juliana lhe disse que sim, e que, estava tudo a decorrer com a normalidade inerente à situação.
 

Eugénio ficou também com o número de telefone e todos os dias ligava para o hospital procurando saber notícias de Cláudia, assim como ia falando também com Irene. Quando o informaram que Cláudia, embora ainda em coma induzido, já podia receber a visita de familiares, comunicou logo com Irene e ambos se deslocaram ao hospital para a visitar. A partir daquele dia, e ainda que muito restrita, todos os dias ambos ali se deslocavam para a imprescindível visita, e aos poucos iam recebendo informações médicas do seu estado e constatando as ligeiras melhoras que Cláudia ia apresentando.
 

No dia em que Cláudia foi despertada do coma pela interrupção da medicação que lhe era administrada para o efeito, após a conversa tida com a equipa médica, começou a sentir a vista a turvar-se e a cabeça a andar à roda, queixou-se do que estava a sentir, a equipa médica tranquilizou-a e informou que era normal, que não se preocupasse porque estava ainda sob o efeito da medicação. Entretanto, caiu num sono profundo e quando voltou a abrir os olhos, tinha a sua mãe e o seu amigo Eugénio sentados a seu lado contemplando-a com um sorriso.
 

- Olá mãe querida! Oh mãe!... E tu Eugénio aqui também? Que bom ter acordado e poder ver-vos aqui a meu lado!


David Marques




06-11-2017

Boa noite, amiguinhos


Junto escala semanal para cada capitulo do conto. Se alguém não tiver disponibilidade na data que lhe calhou, por favor, avise-me. Cada capítulo é para me ser enviado no Sábado, para haver tempo de se fazer alguma alteração, caso seja necessário, antes de eu o publicar.


Beijinhos e obrigada a todos.



1 – Herminio Mendes
2 – José Carlos Moutinho – 6 a 10 de Novembro
3 – Maria Clara Lopes – 13 a 17 de Novembro
4 – José da Nave – 20 a 24 de Novembro
5 – Maria Gonçalves – 27 de Novembro a 01 de Dezembro
6 – José Sá – 04 a 08 de Dezembro
7 – Magda Brazinha – 11 a 15 de Dezembro

8 – Rute Pio Lopes 08 a 12 de Janeiro 
9 - Florinda Dias - 15 a 19 de Janeiro
10 – Anabela Fernandes – 22 a 26 de Janeiro

11 – Aida Sampaio - 29 de Janeiro a 02 de Fevereiro
12 – Zita Nogueira – 05 a 09 de Fevereiro
13 – David Marques – 12 a 16 de Fevereiro
14 – António Henriques – 19 a 23 de Fevereiro
15 – Augusta Gonçalves – 26 de Fevereiro a 02 de Março

 
  
31-10-2017
Listagem de participantes


Aqui deixo a listagem dos corajosos que se dispuseram a participar no nosso desafio, para confirmação. É apenas o número de membros, não a ordem com que participarão.
Oportunamente enviarei a "escala de serviço". Como teremos o Natal pelo meio, será feita de forma a não prejudicar ninguém.

Hermínio Mendes
José Carlos Moutinho
José da Nave
Magda Brazinha
Anabela Fernandes
Maria Gonçalves
António Henriques
Maria Clara Lopes
Rute Pio Lopes
Zita Nogueira
Augusta Gonçalves
David Marques
José Sá

Muito obrigada a todos
Helena Santos.




17-10-2017
O 1º capítulo do conto, já se encontra em Ficheiros, no SORRISOS!



15-10-2017
Como informei há dias, irei publicar no grupo um Documento com o 1º Capítulo do Conto Partilhado e poderão encontrá-lo em FICHEIROS. Quem quiser participar, deverá manifestar a sua vontade, enviando-me mensagem privada. O número desejado é de 20 participantes e poderão inscrever-se até dia 29 de Outubro. Se o número de participantes for atingido antes da data, informarei. O resto das informações, encontram-se na página do blogue.
NÃO SE INSCREVAM NOS COMENTÁRIOS DO CAPÍTULO, NÃO TOMAREI CONHECIMENTO E ELIMINO.

Helena Santos


07-10-2017
1 -
- Letra – Arial
- Tamanho – 10
- 2 páginas A4 – máximo
- 1 página A4 – mínimo
São +- 35/40 linhas por página

2 –
Cada participante terá de Segunda a Sexta para escrever o seu capítulo, dia em que deverá enviá-lo para mim, por mensagem privada. Ao Domingo será publicado, para dar tempo ao participante seguinte de se inteirar da história e dar continuação

3 –
Depois de ter a listagem dos participantes, irei fazer uma escala.

4 – Numero máximo de participantes – 20

5 - Os capítulos serão publicados num Documento que será aberto no grupo.

Reservo-me o direito de fazer qualquer alteração que ache conveniente, depois de ler cada capitulo.


Brevemente publicarei o primeiro capitulo.

Helena Santos

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